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Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

O mundo não parece fácil quando analisamos o mundo de trabalho que esta geração, que nasceu a meio da década de 80, enfrenta.

Chamamos aos millennials de narcisistas mas com uma baixa auto-estima, não estão habituados lutar para a ter tudo o que desejam, incapazes de construir objectivos, com incapacidade de estabelecer laços sociais, sem foco das suas limitações e incapacidade de definir um plano próprio de melhoria, habituados a  ter tudo sem fazer nada… e isso pode ser verdade com alguns, quando perguntamos quais são os seus objectivos que entendem deviam ter atingido um ano depois de estarem numa companhia: CEO claro, respondem!

Mas não todos, nem sequer é um problema geracional e engana-se quem pensa que nesta Geração “são tudo flores”. Esta é uma geração que nasce na década de 80, quando o muro de Berlim cai e a URSS desmorona-se, numa época de pós-utopias e modificação de visões políticas e existenciais.

Cresceram no meio de uma sociedade que passa do ideal do colectivismo para o individualismo, da colaboração e respeito pelas regras para a competição e “cada um cria as suas regras”, o “seu marketing – one to one”. Não têm consciência política e entendem a sociedade de uma forma de “ready to use”.  

Os dados e as informações crescem numa progressão aritmética e tornam-se globais e os jovens, verdadeiros “globetrotters”. A superficialidade é um ponto comum nesta geração, quer nas amizades, nos relacionamentos, nas experiências de trabalho…

Os culpados não são necessariamente os próprios jovens, embora também tenham a sua culpa adquirida pelo conforto a que esta geração teve acesso.

A Família e os Pais, são provavelmente os principais culpados. Pois os seu desenvolvimento verificou-se numa época de gigantescos avanços e disrupções tecnológicas (a internet por exemplo) mas também decrescimento e riqueza econômica onde a facilidade é um ponto comum.

Os próprios pais desenvolveram um sistema educacional baseado na facilidade, recompensa sem contrapartida real, sem premiarem o esforço, estimulando a competição individual. Estimularam e viram os efeitos reais do elevado social a funcionar. A educação académica servia como base para um futuro brilhante, o que não era verdade. A verdade era material e tudo se tornou pouco durável e efémero.

Foi uma geração que cresceu cada vez mais concentrados em grandes polos urbanos e com o digital e virtual a assumir um papel integrador social nas relações sociais e profissionais. Nasceram neste meio, no meio da Revolução Digital. Não têm tempo de pensar, pois cresceram no meio da acção, em que a quantidade de informação disponível duplica rapidamente, tendo que aprender a selecionar e a fazer “like” do que gostam ou “remover” o que não gostam, muito facilmente.

São mais de 30% da população mundial e estão ligados ao mundo por um smartphone. Não precisam de pesquisar ou procurar, basta aceder ao “google.

Em consequência tornaram-se Impacientes, não tendo tempo de selecionar “entre toda a informação disponível” limitam-se a escolher muito bem as fontes. Não se interessam por política pois não viveram tempos em que a sociedade precisou de políticos e ideais fortes, pelo que tornando-se estes cada vez mais semelhantes, se desinteressaram. Este cenário ideológico instável e flexível acompanhado pelo estímulo do liberalismo ao consumo, levou-os a criar novos comportamentos de grupo que depois se tornaram de “tribo”.

Nelson Pires | General Manager da Jaba Recordati

A sociedade passou a ser a sua tribo. Criaram relações de confiança (por exemplo numa determinada plataforma) pois valorizam mais o autêntico que o formal.

Querem ser envolvidos na criação dos produtos e das marcas (crowdsourcing). Antes desta geração, o final do curso académico servia para ter um emprego (bom de preferência, ganhar dinheiro, casar e ter filhos.

O que esta geração nos ensinou é que o conceito de fim de curso e o dinheiro serve para ter experiências únicas e singelas depois (por exemplo de viajar durante um ano no fim de curso), reforçando o individualismo desta geração.

Por isso saem de casa aos 30 anos ou depois, onde estão protegidos e sustentados pelos pais, podendo focar a sua atenção e recursos nestas mesmas experiências.

No meio de tudo isto, no início do século XXI, atirámo-los para o meio de Organizações (empresas) sem os entender, não percebendo o seu “eu” (e não “nós”), a sua ambição e objectivos de vida.

Com choques de gerações dentro da organizações preparadas para receber colaboradores bem disciplinados, habituados a definir um processo para atingir um resultado (demorasse o que fosse necessário), com um estilo algo paternalista, rigidez hierárquica, não considerando o ”work life balance”, assente em fluxos relacionais sólidos e construídos ao longo do tempo, com limitações na introdução de novas tecnologias.

Só podia dar um resultado inesperado. Organizações e gerações anteriores sem compreenderem os “millenials” e criticando-os pelo seu individualismo e falta de foco; com os “millenials” a sentirem-se insatisfeitos e ansiosos por estarem dentro de organizações que julgam esclerosadas, com pessoas que podiam ser os seus pais mas não se comportam como tal. Sem possibilidade de ter informação e entretenimento disponíveis em qualquer lugar e em qualquer altura; sem possibilidade de se tornarem CEOs no primeiro ano.

Esta foi a geração mais atingida pela Crise económica de 2008 e pela crise actual gerada pelo Covid-19.

Afectou drasticamente a sua carreira e a sua remuneração (“Apenas um terço dos Millennials e 38% da Geração Z não foram afetados nos seus trabalhos nem na sua remuneração” – Deloitte). A parte positiva, é que estas 2 crises tornaram-nos resilientes, ganharam valores que a família (nem a escola) ensinou, deixando de pensarem tanto no “eu” e mais no nós.

Sentimentos contraditórios desta geração que parece que precisava de “um abanão” que os impelisse a desejar construir e contribuir para um mundo melhor. A contribuir com a sua parte na sociedade, não através das redes sociais mas através comportamentos positivos.

“Na guerra, mais importante que o nosso inimigo, é quem temos ao nosso lado a combater”.

Vamos ver!!!


Fonte: Executive Digest