"O que gestores e empresários esperam de 2018" serviu de mote para a XIII Conferência Executive Digest, cuja abertura esteve a cargo de Ricardo Florêncio, Para o CEO da Multipublicações, «podem ser situações mais normais, como manutenção do crescimento económico mundial, o crescimento do turismo em Portugal, o aumento de centros de expertise no país como factor de atracção de talentos e de receitas. Mas os pedidos podem passar também por alguma estabilidade fiscal, o não aumento dos impostos, sejam directos, sejam indirectos, fazer com o Estado cumpra e honre os seus compromissos, ou pedidos mais complicados, como a redução do aparelho do Estado, a redução de impostos a nível geral, ou mesmo uma gestão mais cuidada e bem distribuída dos dinheiros públicos», referiu Ricardo Florêncio.

 

Ricardo Florêncio, CEO da Multiplublicações

Ricardo Florêncio | CEO da Multipublicações

Estes e outros temas foram analisados por Paulo Carmona, presidente da Direcção da Missão Crescimento, que fez urna retrospectiva da situação do país desde que a associação foi criada, em 2011, para pensar o crescimento da economia portuguesa. Paulo Carmona partilhou também as perspectivas para 2018 deste think tank que junta cinco entidades: Ordem dos Engenheiros, Ordem dos Economistas, CIP, Fórum de Administradores de Empresas e Projecto Farol.

 

«Quando veio o memorando da Troika, memorando para o ajustamento financeiro, pouco dele estava a pensar no crescimento. Estas entidades juntaram-se precisamente para tentar encontrar saídas para o pós-ajustamento financeiro, como é que a economia portuguesa ia voltar a crescer, porque em termos estruturais a economia portuguesa não cresce desde 2010», referiu o presidente da Direcção da associação.

Paulo Carmona, presidente da Direcção da Missão Crescimento

Paulo Carmona | Presidente da Direcção da Missão Crescimento


Vectores de crescimento

A Missão Crescimento criou cinco vectores de crescimento da economia portuguesa: a integração da zona euro, as políticas públicas, o financiamento da economia, a atractividade da economia ao investimento e a conectividade, a inovação tecnológica e competitividade


 

A Missão Crescimento criou assim cinco vectores de crescimento da economia portuguesa: a integração da Zona Euro, as políticas públicas, o financiamento da economia, a atractividade da economia ao investimento e a conectividade, a inovação tecnológica e competitividade. Paulo Carmona recordou que Portugal, em 2003, era o 1652 país mais rico da Europa em PIB per capita, quando durante a década de 80, 90, competia com a Grécia para ver quem era menos pobre. «Para 2018, com as previsões recentes da União Europeia, caímos para 21º e com uma previsão de crescimento de 2,2%, e com a Polónia, que está a crescer 3.6%, milito perto de nós. Ou seja, praticamente, em termos relativos, estamos a empobrecer face à média da Europa.»

Para 2018, o que é que a Missão Crescimento vê? «Em termos internacionais, algo que não foi muito falado e que é a questão do choque fiscal americano que põe a taxa de imposto das empresas a 20%, beneficia o repatriamento cio capital das empresas norte-americanas no estrangeiro e pode ter repercussões a nível do aumento do défice americano, exportação da inflação, exportação de taxas de juro altas. Isto para nós, Europa, mas principalmente Portugal, pode ter efeitos devastadores. O Médio Oriente, o Brexit, a Venezuela são grandes incertezas, assim como Putin e Trump.»

Outra questão que poderá acontecer este ano é a bolha de activos. «Será que estamos no pré-rebentar de uma bolha que vemos em praticamente todos os mercados: nas obrigações, acções, imobiliário, um pouco por todo o lado? Depois há a redução progressiva da injecção de liquidez dos bancos centrais que poderá ter urna repercussão bastante grande», acrescenta.

Na União Europeia, «há ainda os temas da Angela Merkel e de como irá conseguir, em termos internos, ultrapassar as questões políticas. Como vai evoluir o aprofundamento e o redesenho das instituições europeias por parte do par Merkel/Macron. A questão do Quantitive Easing e os juros do BCE. A Europa 2020, o novo desenho das instituições, o ouro, o ministro das Finanças europeu, todas as tensões nacionalistas que existem, os partidos extremistas que vemos um pouco por todo o lado e que cada vez estão mais perto um dos outros.»

 

Inês Veloso | XIII Conferência Executive Digest

XIII Conferência Executive Digest

 

Em termos nacionais, vamos assistir a um crescimento das reivindicações corporativas versus estabilidade orçamental. «Vamos ver a resposta da economia a choques externos, há a questão do petróleo que tem estado a subir lentamente, o que para uma economia como a nossa, dependente da energia, é complicado. Existe a variável do turismo, ou seja, o turismo que estruturalmente está a crescer, mas também a existência de um turismo que conjunturalmente é urna questão de moda. Depois há a questão do investimento estrangeiro e da sua captação de forma a criar riqueza e investimento produtivo, porque hoje o investimento é muito mais em empresas existentes do que na criação de nova riqueza. E a questão da produtividade da economia, que tem vindo a baixar.»

 

Por último, a competitividade de escala e dos meios de produção. «Em Portugal perdemos demasiado tempo na discussão do salário mínimo porque, no nosso entendimento, discutimos 10 euros no salário mínimo e não discutimos por que é que não podemos ter um salário mínimo de 900 euros, por exemplo, que era aquilo que devíamos ter e que os outros parceiros hoje têm. Estes silo desafios que se colocam não só para 2018, mas para os próximos cinco anos», conclui Paulo Carmona.

 


Hoje, está-se a invetir mais em empresas que existem do que na criação de nova riqueza


 

O emprego em 2018

Inês Veloso, directora de Marketing e Comunicação da Randstad, começou a sua intervenção por desconstruir a ideia que os empresários têm sobre o terna dos recursos humanos e do emprego, afirmando que este é um assunto que diz respeito a todos e não apenas às áreas de recursos humanos das empresas. Isto porque há organizações que investem em Portugal, que criam novos produtos e novas soluções, mas que depois não têm pessoas para garantir o seu desenvolvimento.

 


Testemunho RANDSTAD

Juntar na mesma sala, uma manhã, decisores e abordar com transparência os desafios do próximo ano

Este foi o desafio lançado pela Executive Digest e aceite por líderes de referência. Entre apresentações e conversas analisaram-se números e previsões, expondo-se receios e até algumas fragilidades. Num ambiente muito positivo não se pecou pelo excesso de optimismo nem pela visão que dizem que caracteriza o povo português. Não houve fado, há receios, há preocupações, há necessidade de planear mais e melhor, garantir o equilíbrio de variáveis como a legislação e o impacto da Europa. Uma manhã em que se falou a sério de uma forma aberta e agradável como a Executive Digest nos habituou, coma qualidade do painel e das intervenções, enriquecendo todos os que tiveram a oportunidade de estar presentes.


 

De acordo com Inês Veloso, Portugal está a mudar, mudança esta que também se sente alegadamente na economia, mas que se sente principalmente na taxa de desemprego. «Em 2012 vimos uma escalada na taxa de desemprego e começamos a ver essa descida. O que é que essa descida representa naquilo que é a empregabilidade e o emprego em 2018? A Randstad, em Portugal, emite cerca de 55 mil declarações de IRS anualmente, o que faz da empresa o terceiro maior empregador privado a nível nacional. Se considerarmos que temos 600 mil pessoas na nossa base de dados de candidatos, podemos dizer que temos 12% da população activa disponível para integrar em novos trabalhos. Por isso não devíamos estar preocupados com a guerra do talento, porque estamos munidos para dar as melhores pessoas aos nossos clientes. Mas quando olhamos para a pirâmide demográfica, o que vemos é que em 2012 existia uma faixa da população pronta para esta integração e para este desenvolvimento, enquanto quando olhamos para 2035 aquilo que vemos é que teremos menos de10 milhões de habitantes e um quarto da nossa população estará envelhecida. A guerra do talento não é exclusiva de grandes empresas, de áreas de recursos humanos, é sim transversal. Por isso, em 2018 e para os anos que aí vêm, temos de ser mais inteligentes em compreender dc que forma vamos garantir que as nossas empresas têm acesso a esse mesmo talento.

 


Há empresas que investem em Portugal, que criam novos produtos e soluções, mas depois não têm pessoas para garantir o seu desenvolvimento


 

Acreditamos que a data science tem aqui um papel fundamental, data .science no sentido em que vamos não apenas combinar aquilo que são os nossos dados internos que nos permitem conhecer, no caso da Randstad, esta panóplia das 600 mil pessoas que temos em base dc dados, das 55 mil declarações de IRS que emitimos anualmente, as 30 mil pessoas que temos a trabalhar, em média, nos nossos clientes, mas também um conjunto de fontes externas onde são partilhados inúmeros dados sobre emprego. desemprego, funções, e a partir daqui trabalhar numa componente muito mais preditiva.

 


João Duque | ISEG

Testemunho João Duque | ISEG

Os gestores parecem optimistas, pois os sinais mais preocupantes não parecem estar a emergir no curto prazo

Os sinais de risco mais preocupantes para a economia portuguesa são: abrandamenÍi to do crescimento económico na Europa, subida das taxas de juro de curto, médio e longo prazo, subida do preço das matérias-primas com especial enfoque para o petróleo, valorização cambial do euro. subida da conflitualidade laborai em Portugal, alteração forçada da tributação de não residentes ou os resultados do processo do Brexit. Todos aparecem apenas como razoavelmente visíveis no prazo de um ano. Por isso é natural que assumam que há tempo para ajustar e reagir a estas alterações ao longo do tempo. No entanto, muitos estão em marcha: as taxas dejuro e a conflitualidade laborai estão a aumentar, o petróleo está a aumentar desde Junho, o euro sobe face ao dólar desde Abril, os países europeus começam a exigir uma alteração fiscal por parte de Portugal no tratamento dos aposentados... Se tudo se conjugar com uma desaceleração das exportações, podemos ter um final de 2018 mais amargo do que o antecipado.


 

Esta combinação vai-nos permitir ganhar inteligência que pode ser passada não apenas às empresas mas também aos candidatos, e que tem de ser passada também em termos de país para que haja esta competitividade nas pessoas que temos ao nosso dispor. Hoje conseguimos fazer previsão de talentos, automatização naquilo que é a ligação dos talentos ao próprio mercado de trabalho. Isto significa que, por exemplo, quando uma empresa decide que vai instalar a sua indústria mima determinada cidade, a Randstad consegue indicar-lhe a taxa de empregabilidade da região, de desemprego, saber se são pessoas que procuram o primeiro emprego, se vêm de uma situação de primeiros empregos e definir assim uma estratégia para captar pessoas e garantir que a indústria consegue arrancar. Estes dados permitem-nos também fazer o mapea mento em termos de competências. As organizações devem também ter estratégias internas de desenvolvimento quer de programas de reconversão, quer de programas de desenvolvimento de competências, caso contrário não vamos todos conseguir responder.

A estratégia de employer branding deve garantir que conhecemos não só o que faz as pessoas manterem-se na organização, mas também como é que as pessoas percepcionam a empresa no mercado e trabalhar aquilo que é uma proposta de valor para os novos colaboradores e para os actuais.

 


Captar talento

A guerra do talento não é exclusiva de grandes empresas, de áreas de recursos humanos, é transversal. Por isso, em 2018 e para os anos que aí vêm, temos de ser mais inteligentes em compreender de que forma vamos garantir que as nossas empresas têm acesso a esse mesmo talento


 

É necessário garantir também que compreendemos este novo mercado de recursos humanos, de gestão e atracção de pessoas. Este é um dos sectores que está a ter a maior disrupção. Por isso, acreditamos que nesta guerra cio talento o algoritmo vai ter um papel fundamental na parte do recrutamento, um algoritmo que vai ser sempre suportado por um super computador, o ser humano. Na guerra do talento tem de existir esta combinação. Não basta transformar as nossas organizações, é preciso também transformarmos a forma como atraímos e retemos os nossos colaboradores. É nesta combinação entre tecnologia e pessoas que vamos conseguir vencer essa mesma guerra», garante Inês Veloso.

 


Manuel Falcão | Nova Expressão

Testemunho Manuel Falcão | Nova Expressão

Nos Media, 2018 vai ser um ano de continuado crescimento do digital, sobretudo baseado em dispositivos móveis, do consumo crescente de streaming vídeo e áudio e de uma segmentação de dados e informação cada vez mais detalhada, sobretudo com ferramentas de geolocalização

O outro lado disto é que continuará a degradação da circulação de jornais e revistas generalistas e também dos espectadores de televisão tradicional. Mas há um lado que importa ter em conta: os números mostram que as pessoas procuram conteúdos portugueses e visitam sites de notícias nacionais. As marcas de informação que nasceram no papel são certidões de confiança para os leitores em digital, que as procuram. Apesar do peso muito grande das redes globais no nosso mercado, os utilizadores nacionais mostram querer conteúdos portugueses - quer noticiosos, quer em vídeos ou blogues. Este facto representa uma enorme oportunidade para os grupos de Media nacionais - se conseguirem juntar-se e criar uma resposta conjunta, concorrencial, em termos técni• cos e de eficácia. ao duopólio Google-Facebook. As empresas portuguesas precisam de pontos de contacto locais com consumidores portugueses e ninguém está melhor posicionado para estudar estratégias e fazer propostas do que as empresas portuguesas. nomeadamente as agências de Media nacionais, que estudam e seguem este mercado e que não estão sujeitas a acordos e obrigações globais.


 

Interiorizar a educação

Rui Paiva, CEO da WeDo Consulting e orador de encerramento da conferência, considerou que para 2018, quando se compara Portugal aos países nórdicos, a grande diferença que existe é «claramente » a educação. «Começámos a acelerar o processo da educação depois do 25 de Abril e, para conseguirmos apanhar os outros, temos vindo a fazer tudo muito mais rápido e quando se faz muito rápido não se faz necessariamente bem. Estamos muito melhores do ponto de vista da educação, mas é preciso, quando se está a receber a educação, ter vontade de receber a informação e penso que isso ainda não existe. As pessoas vão porque têm de ir, não pela vontade de verdadeiramente aprender e usar o que aprenderam em continuidade. Se aproveitarmos este tema da formação e o interiorizarmos e aplicarmos, seremos verdadeiramente diferentes.

 


João Gonçalves | ACCENTURE

Testemunho José Gonçalves | ACCENTURE

Faço votos que Portugal acelere de forma decisiva a aposta no Digital. E isso passa por conseguirmos mais investimento, talento e colaboração

Ao nível do investimento, devemos potenciar as condições únicas do nosso país, ao nível das condições de vida, localização geográfica, competitividade e qualidade do talento, para atrair mais centros tecnológicos de empresas multinacionais e promover a criação de startups a partir de Portugal. Devemos ainda desafiar as nossas grandes empresas, ditas tradicionais, a investir na criação de negócios digitais, atacando o mercado à escala global. No que se refere ao talento, seria muito importante aumentar consideravelmente a oferta educativa na área das tecnologias e atrair mais alunos nacionais e internacionais para as nossas escolas, retendo-os em Portugal através dos referidos investimentos em iniciativas digitais aliciantes.

Finalmente, em termos da colaboração, torna-se cada vez mais importante reforçar o estabelecimento de parcerias entre as empresas, as consultoras tecnológicas, as startups e a academia. Na economia digital, o sucesso não se alcança sem ecossistemas de inovação que agreguem backgrounds e competências complementares, assegurando a melhor experiência dos consumidores, em função do seu estilo de vida.

Na economia digital onde vivemos, o mundo é o nosso mercado e a fonte de recrutamento/ atracção de talento. Essa não é mais uma oportunidade- é a OPORTUNIDADE para a economia portuguesa, única na história recente do País, que poderá aumentar de forma drástica a exportação de bens transaccionáveis, acelerar o consumo interno e melhorar as receitas fiscais resultantes de mais trabalho qualificado.


 

Mesa Redonda | XIII Conferência Executive Digest

 

MESA REDONDA

Na mesa redonda que reuniu responsáveis de quatro organizações em torno do tema "Os votos e desejos dos gestores e empresários para 2018", o sentimento foi praticamente unânime: existem problemas a resolver nos campos fiscal e legislativo, nomeadamente no que diz respeito a políticas laborais.

Moderados por João Duque, professor of Finance do ISEG, os gestores José Gonçalves, presidente da Accenture, Luís Pais Antunes, managing partner da PLMJ Advogados, Manuel Falcão, director-geral da Nova Expressão, e Nelson Pires, presidente da Jaba Recordati, deixaram pistas sobre o rumo que o país deveria tomar para alavancar o seu crescimento.

 

O que é que têm como fundamental na perspectiva para o ano de 2018?

José Gonçalves: A Accenture é uma empresa de serviços de consultoria e tecnologia. Corno gestores e empresários, ternos de nos preocupar e focar naquilo que conseguimos influenciar ou gerir. Há aspectos exógenos que todos conhecemos. Portugal beneficiará de simplificar a sua burocracia, ter um Estado mais ágil que simplifique a vida das pessoas e dos investidores. Portugal também beneficiará necessariamente de ter uma estabilidade, não necessariamente de governo, mas sobretudo uma estabilidade das políticas fiscais e legislativas que permitam, a quem vem investir em Portugal, sentir que o país é uma entidade de bem, que concretiza os seus compromissos, e esses são factores importantes. Na Accenture, na reflexão que temos para 2018 e a médio prazo, acreditamos que Portugal tem pela frente urna oportunidade única, como não teve nas últimas décadas, de aproveitar a oportunidade digital que está. pela frente. Se eu conseguir pensar e se incutir nos gestores a mentalidade por defeito que o mercado que vou atacar é o mundo, ainda que possa ser um nicho dentro do mundo, isto pode ser um game changer ou estruturante em termos daquilo que podemos fazer para o crescimento da nossa economia.

 


Oportunidade Digital

Na Accenture, na reflexão que temos para 2018 e a médio prazo, acreditamos que portugal tem pela frente uma oportunidade única, como não teve nas últimas décadas, de aproveitar a oportunidade digital que está pela frente


 

Luís Pais Antunes: Gostava de referir três coisas. Começando pelo país, não ponho o polegar para cima, nem para baixo, deixo-o deitado. Sou um optimista, mas acho que os factores de incerteza permanecem, com uma agravante. Grande parte dos desafios que foram enunciados durante esta conferência poderiam tê-lo sido há um ano ou há dois ou há cinco e eventualmente daqui a um ano, a dois ou a cinco, porque são os problemas crónicos e estruturais do nosso país: a total falta de estabilidade fiscal e de ninguém conseguir prever o que é que se vai passar daqui a um mês, quanto mais daqui a um ano; o problema, intratável, de falta de estabilidade legislativa; o problema da legislação laboral. Portanto estamos sempre dependentes de factores exógenos. Agora isto está a correr bem, mas por muitos que sejam os méritos do novo presidente do Eurogrupo ém cativar mais aqui e menos acolá, a nossa melhoria que é óbvia deve-se a factores externos. Tem pouquíssimo a ver com factores internos. Portanto, é difícil ser optimista num contexto de grande instabilidade e de grande volatilidade.

 

Mesa Redonda - XIII Conferência Executive Digest

 

Mas e em relação à procura turística que alguns atribuem ao facto de haver algum receio relativamente a outras localizações e escolhem Portugal por ser um país onde se pode andar com segurança?

Luís Pais Antunes: É um misto, é porque temos condições naturais e estruturais para o turismo quase imbatíveis. O nosso grande desafio deve ser estragar o menos possível.. Mas enquanto país não estamos a fazer aquilo que é necessário para tentar dar uma base de sustentação tão forte quanto possível a esse movimento turístico. Neste momento começamos a ter em várias zonas do país, incluindo Lisboa, problemas de sobredimensionamento ou de falta de capacidade de resposta para o fluxo turístico. No mundo da advocacia em concreto, há alguma verdade naquilo que o João estava a dizer. Os advogados ou as sociedades de advogados podem estar bem num contexto de crise, como podem estar bem em tempos de crescimento. Mas isso não é uma receita. Não estão todos bem, nem isso funciona da mesma forma para toda a gente. É preciso estar bem equipado, bem preparado, é preciso ter muito cuidado com a gestão das equipas. Numa organização grande, como aquela que dirijo actualmente, que tem quase 500 pessoas, temos mercados completamente distintos. De facto, em 2011 e 2012 tínhamos de ter muita gente a trabalhar em reestruturações e insolvências e pouca gente a fazer contratos. Hoje temos de ter urna preocupação de rotação significativa, o que não é muito fácil numa actividade como a nossa. Sobre a questão de sairmos deste mercado, é fundamental para qualquer actividade, porque o nosso mercado é excessivamente pequeno. Tenho o objectivo de crescer todos os anos e desejavelmente crescer sempre a dois dígitos. Há um momento em que vai começar a ser difícil. Nos últimos três anos, temos conseguido subir sempre acima de dois dígitos, mas isso cada vez menos deve-se ao mercado interno e cada vez mais ao mercado externo.

 

Como é a perspectiva de uma instituição que depende tanto das outras e agora num processo em que o digital entrou de uma forma potentíssima em todas as áreas?

Manuel Falcão: A Nova Expressão é uma agência de meios de capitais exclusivamente portugueses o que se traduz imediatamente numa coisa. Temos urna maioria de clientes portugueses, temos relativamente poucos clientes internacionais estrangeiros, não ternos contas alinhadas como têm normalmente as multinacionais deste sector.

Portanto, somos muito sensíveis à evolução dos clientes portugueses e à evolução da economia portuguesa. Devo dizer que as notícias optimistas sobre a economia portuguesa ainda não se reflectem neste sector. O digital alterou completamente a forma como trabalhamos, porque alterou o que é o consumo da informação e de media em geral pelas pessoas. O digital hoje é um canal de distribuição onde coexiste o que era a imprensa escrita, é um canal de distribuição onde existe a rádio e fez alterar substancialmente o comportamento dos ouvintes de rádio e o perfil da audiência de rádio ao longo do dia. É um canal que está a subverter completamente a forma de ver televisão e é finalmente um canal onde novas formas de comunicação nascem todos os dias.

Corno é que vejo o digital na área da publicidade neste momento? No início da crise, o investimento em publicidade digital andaria perto dos 5% na altura em que estávamos nos 720 milhões de euros. Neste momento, em números oficiais no mercado português anda nos 20%, portanto, teve um crescimento enorme, um crescimento à custa de todos Os meios, sobretudo da imprensa que foi o que caiu mais, mas também à conta da televisão. Em números redondos, só metade dos espectadores portugueses é que vê os canais generalistas. Esta quebra de audiência produz uma dificuldade maior da televisão enquanto veículo publicitário conseguir entregar as audiências que os anunciantes pretendem. Temos anunciantes que há um ano ou dois insistiriam para se usar televisão e que no ano passado optaram por experimentar um investimento muito mais forte e diversificado em plataformas digitais. Os resultados estão a ser interessantes e estão a ser bons e isto mostra como o sector está a mudar. No fundo a única coisa que fazemos é ter um radar ligado ao que é a alteração dos hábitos dos consumidores. O consumidor cada vez está mais no canal de distribuição digital, de informação e conteúdos, é aí que temos de ir à procura dos pontos de contacto que haja com as marcas.

 


Nelson Pires | Jaba Recordati

Testemunho Nelson Ferreira Pires | Jaba Recordati

A doutrina Monroe para a economia: A economia para as empresas e não para o Estado

O ano de 2018 vai ser de desafio, com o desacelerar do crescimento económico, a possível subida das taxas de juro, o risco do aumento do preço do petróleo, entre muitos outros riscos que nos irão levar para o 210 lugar no ranking do PIB per capita da UE, quando em 2003 estávamos no 160 lugar. Temos um crescimento mais baseado no consumo em detrimento do investimento e da diversificação das nossas exportações, embora o crescimento das exportações e do turismo tenha ajudado bastante ao cenário positivo de 2017 Portanto, o que pretendo para 2018 é um ambiente de estabilidade legislativa e governativa, em que o Estado e a acção governativa sejam agentes reguladores e não agentes interventivos (o Estado "colonizador" da economia pela positiva ou negativa) na actividade económica:do país. Os empresários e as empresas servem para dinamizar a economia, gerar empregos, pagar impostos e ter lucros! Ao Estado cabe regular de forma justa de acordo com o contrato social estabelecido, incentivar a actividade económica sustentável e equilibrada, eticamente responsável. O meu maior receio .é que o Estado não veja o seu papel desta forma e se tente financiar na economia real, com taxas, impostos, subsídios e outros que tal; e que em lugar de "acabar com os pobres", tente "acabar com os ricos", que criam empresas prósperas e geradoras de riqueza; Formam empregados que geram e acrescentam valor e produtividade; desenvolvem produtos e conceitos que estrategicamente permitem ter sucesso na economia global!


 

Como será este ano na óptica do sector farmacêutico

Nelson Pires: No meu sector, quando falamos de saúde primeiro falamos de Orçamento do Estado. Infelizmente o Estado na minha área faz muitos disparates. Para além de achar que não há uma estratégia de saúde nem de medicamento, há outra agravante. Esta é uma área onde é muito fácil cortar porque cada vez que se corta e se bate na indústria farmacêutica, todos os consumidores ficam contentes. O mercado, neste momento, em Portugal, está a crescer 1% em termos de ambulatório - em volume cresce muito mais -, mas temos um mecanismo de medicamentos genéricos que faz com que o preço se reduza substancialmente. Isto assusta-me porque com o mercado a crescer 1%, e que vale 0,003% do mercado mundial, as multinacionais, que é quem investiga e quem investe, deixam de ter interesse neste mercado. Isso faz com que nós cada vez mais vejamos directores-gerais a gerir Portugal/Espanha, em que Portugal é uma pequena província espanhola sem autonomia de decisão. Sempre que há cortes de investimentos são em Portugal, não vão cortar no grande mercado que é o espanhol e isso faz com que, de facto, nunca saibamos para onde é que o nosso mercado vai. Apesar de termos urna expectativa de crescimento grande, porque clientes vamos ter sempre, o problema é que nunca sabemos o que o Estado vai fazer para nos cortar o acesso aos clientes e o acesso aos clientes é para salvar vidas. Se me perguntarem como é que vai correr o ano de 2018 não sei, porque tudo depende às vezes das medidas do Governo. Eu giro dois mercados, um é Portugal o outro é a Irlanda, e percebo por que é que as multinacionais gostam de ir para a Irlanda e por que é que não há desemprego na Irlanda. Nesse mercado, o emprego é qualificado, os salários são altíssimos.

 


Temos mecanismos que nos bloqueiam o crescimento e a capacidade de investimento. Um deles é o fiscal porque pagamos impostos demais


 

Em Portugal, temos mecanismos que nos bloqueiam o crescimento e a capacidade de investimento. Um deles é o fiscal porque pagamos impostos demais em Portugal, o segundo é a lei laboral e o terceiro são as decisões do Governo que são conjunturais. Tenho um budget muito prudente para 2018, como tinha em 2017. Felizmente temos vindo a crescer 7% ao ano, mas de um momento para o outro pode mudar.

 


Paulo Carmona | Missão Crescimento

Testemunho Paulo Carmona | Missão Crescimento

2018 será um bom ano

Pelo menos os primeiros nove meses até 1 entendermos como a economia absorverá o previsível aumento dos juros, do euro e de uma eventual acalmia na avaliação do risco global. Portugal terá o crescimento que quisermos e os nossos principais deixarem (ou puxarem). Dependerá de nós deixarmo-nos de discussões pequenas sobre aumentos de io ou 15 euros no salário mínimo e não as termos sobre por que razão não temos os salários mínimos de Soo a 1000 euros e a produtividade de outras economias. Insistir na vulgarização da mediocridade e na pobreza e sua distribuição não nos irá tirar do sítio onde estamos, a empobrecer face à média europeia. Em 2003 éramos o 160 país mais rico, ou o 120 mais pobre da União Europeia. Em 2018 seremos o 210 mais rico, ou o 80 mais pobre. E em 2020, a fazer fé nas previsões, cairemos mais dois lugares, ultrapassados pela Polónia e Letónia. Um país que não cresce nos últimos 17 anos, onde os portugueses não veem os seus rendimentos crescer, é muito triste. E nós continuamos a discutir a repartição de migalhas, a endividarmo- -nos para consumir e a repetir os erros que trouxeram a troika. Parece que gostamos de desgraças. É um fado...


 


Publicidade Digital

No início da crise, o investimento em publicidade digital andaria perto dos 5% na altura em que estávamos nos 720 milhões de euros. Neste momento, em números oficiais no mercado portuguès anda nos 20%


 


Inês Veloso | RANDSTAD

Testemunho Inês Veloso | RANDSTAD

Não vemos nas estrelas, nem nas cartas, vemos sim nos dados e é com eles que conseguimos guiar parte do nosso caminho, planear e decidir seja a curto prazo, seja quando planeamos a um ou dois anos

2018 vai continuar a usar a informação, o algoritmo vai continuar a evoluir para conseguirmos prever de forma ainda mais exacta qual o caminho a seguir para atingirmos os nossos objectivos. Esta análise não é exclusiva dos mercados e já hoje se aplica na gestão das pessoas e 2018 vai ser um ano de pessoas, de talento. As especificidades dos perfis, a procura de profissionais na área das CTEM (Ciência, Tecnologia. Engenharia e Matemática) e o volume são desafios que não são exclusivos aos recursos humanos, pelo impacto transversal que têm.

Sem visões negativas, mas com um optimismo moderado, preparamos mais 365 dias, focados na transformação das nossas empresas e na combinação perfeita entre o tecnológico e as pessoas, em que o digital é a ferramenta para que os talentos sejam ainda mais eficientes.


 

Fonte: Executive Digest | 01-01-2018