06 DEZEMBRO 2017

XIII Conferência Executive Digest - desafios para 2018

O papel do Estado no apoio ao crescimento das empresas e, consequentemente, de Portugal foi um dos temas fortes da XIII Conferência Executive Digest.

Na mesa redonda que uniu responsáveis de quatro organizações em torno do tema "Os votos e desejos dos gestores e empresários para 2018", o sentimento foi praticamente unânime: existem problemas a resolver nos campos fiscal e legislativo, nomeadamente no que diz respeito a políticas laborais.

O mote foi dado por Luís Pais Antunes, managing partner da PLMJ Advogados, que afirma sentir-se optimista em relação ao próximo ano mas consciente de que os factores de incerteza permanecem: É impossível prever o que vai acontecer daqui a um mês.

Mais tarde, na conclusão da conferência, Rui Paiva, CEO da WeDo Consulting, viria a acrescentar que para as empresas apostarem em investimentos sérios, a 10 ou 20 anos, é imperativo que as condições não mudem constantemente. Mais uma vez, a legislação laboral e fiscal tem de oferecer alguma segurança para que o País seja atractivo.

Nelson Pires, presidente da Jaba Recordati, tocou no mesmo ponto: o futuro do sector depende do Orçamento de Estado e das decisões tomadas pelo Governo. O profissional refere que o Governo tem feito muitos disparates nesta área, apontando para a mudança do Infarmed para o Porto, entre outros exemplos.

Destaque ainda para outras duas perspectivas discutidas na mesa redonda do evento, que contou com moderação de João Duque, professor de Finanças no ISEG. Em primeiro lugar, José Gonçalves, presidente da Accenture, colocou em evidência a importância do digital na transformação das empresas, tema que deverá continuar na ordem do dia durante o próximo ano. Diz o responsável que aproveitar o digital é um dos maiores desafios para Portugal e que este poderá ser um meio de potenciar o crescimento e expansão internacional dos vários sectores - tal como o calçado, os vinhos e a cortiça já souberam fazer. A mentalidade padrão deve ser a de atacar o mundo e não somente Portugal ou até determinada região.

Manuel Falcão, director-geral da Nova Expressão, por seu turno, expôs o panorama no campo publicitário e da comunicação. Segundo o responsável, os sinais positivos da economia de que se fala, em geral, não se fazem sentir no sector das agências de meios. As audiências, nomeadamente de televisão, estão cada vez mais fragmentadas e o digital não é só mais um meio de comunicação: veio alterar como se faz e consome imprensa e rádio, por exemplo.

 

Desejos para 2018

 

"Criar mais oferta universitária de cursos tecnológicos"

José Gonçalves | Accenture

 

"Que o Governo faça o menos possível e, se possível, desfaça algumas das coisas que fez"

Luís Pais Antunes | PLMJ

 

"Apostar na manutenção das empresas de informação e comunicação portuguesas"

Manuel Falcão | Nova Expressão

 

"Que o Governo não faça nada e que deixe os empresários trabalhar"

Nelson Pires | Jaba Recordati

 

Na XIII Conferência Executive Digest, que se realizou esta manhã no Hotel D. Pedro, em Lisboa, participaram também Paulo Carmona, presidente da direcção da Missão Crescimento, e Inês Veloso, directora de Marketing e Comunicação da Randstad. Todas as intervenções poderão ser exploradas ao pormenor, posteriormente, na edição impressa da revista Executive Digest.

 


 

Texto: Filipa Almeida

Fonte: Executive Digest | 06-12-2017

A real epidemia pós covid serão as doenças mentais, nomeadamente o burnout, a ansiedade, depressão e frustração. Esta pandemia da exaustão emocional é algo que deve preocupar a sociedade.

Excesso de trabalho, de preocupações, desequilíbrio entre a vida pessoal e profissional que invadiu a casa das pessoas com o tele-trabalho e tele-escola, a adaptação a novas realidades profissionais, a própria ausência de vida social, o medo do futuro, o risco e/ou o desemprego… Provavelmente não é pós pandemia, mas algo que já está a acontecer durante a pandemia.

Por isso acredito pouco que o trabalho remoto será uma realidade permanente, pois ganha-se alguma eficiência e provavelmente produtividade; mas perde-se afiliação, employer branding, separação entre privado e profissional.

E toda esta angústia num País que anuncia medidas todos os dias, para combater a crise que a pandemia criou. Layoffs, moratórias, apoios… Boas medidas económicas e sociais, mas que não chegam às pessoas nem às empresas.

Alguns dias atrás, um governante dizia-me que tinham já apoiado 40.000 empresas… Mas só na área da restauração há mais de 130.000 e PMEs há mais de 1.3 milhões de empresas. E todas estas estão certamente a sofrer com a crise e a pandemia, bem como a necessitar de apoio e injeção de liquidez.

Provavelmente a responsabilidade nem é dos políticos mas das formas e regras que criam para aceder aos benefícios  (para dificultar o acesso promovendo a equidade), da legislação mal feita, bem como da ineficiência reconhecida da administração pública, que já era ineficiente e que actualmente - em muitos casos, não todos - aproveitou o “trabalho remoto” para fazer “trabalho fantasma”. Ou seja, nem sabemos por onde andam, nem atendem o telefone, nem respondem aos e-mails, simplesmente desapareceram.

Por tudo isto, todos apontam 2024 como o ano em que voltaremos ao valor do PIB de 2019, pasme-se!

Portanto temos o sistema político e modelo governamental ideal em momento de crise, uma esquerda social. Pois, (e sem preconceitos ideológicos ) em Portugal ser de esquerda é ser contra “o sistema”, respeitar as diferenças e defender os desprotegidos, desejar a igualdade social, defender um papel interventivo do estado para reequilibrar o elevador social, garantir que os que não têm voz passem a ter, comunicar medidas diariamente… e a comunicação social e a nossa elite intelectual promove esta pressuposta racionalidade. Mas não é isso ser apenas populista, neste caso, em que comunicamos tanto e fazemos tão pouco? Dizer o que as pessoas querem ouvir, nomeadamente as grandes massas!

Ser da direita e/ou liberal é pactuar com o diabo (lembremo-nos do 25 de Abril mas esqueçamos o 25 de Novembro), mas será isso mesmo verdade? Não foi este discurso tantas vezes repetido que se tornou verdade para as pessoas. Julgo que sim! Os objetivos da maioria dos partidos (de esquerda ou direita, salvo alguns mais radicais e com agendas muito próprias) são os mesmos, as formas de os atingir é que são diferentes. Não há bons e maus, na maioria dos casos partidários.

Em suma, esta pandemia criou um burnout social/económico/político recorrente. A forma como a sociedade encontrou “de resposta prolongada a factores de stress físicos e emocionais crónicos que culminam em exaustão e sentimentos de ineficácia”. Aquilo que os cidadãos e a sociedade estão a sentir nos dias de hoje, em relação ao seu dia-a-dia, mas também em relação à forma como estão a ser governados é um “burnout de esquerda”.

As expectativas eram altas e os resultados são baixos, estamos portanto exaustos emocionalmente, despersonalizados e desumanizados, com baixa realização profissional e pessoal. Não significa isso que queiramos outro governo, provavelmente não queremos, segundo as sondagens! Mas também não queremos “desculpites”.

Queremos políticos e gestores, decisores com base em informação sólida e técnica, queremos outras medidas, queremos planificação e organização, queremos eficiência, accountability, sentido de estado, acesso, equidade e igualdade, proteção social a quem necessita, incentivos a quem produz, empreendedorismo, segurança, queremos que a “bazuca” seja uma realidade e não um mecanismo de financiamento e apoio aos “mesmos do costume”…

 

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

 


 

Fonte: Executive Digest