30 ABRIL 2019

Vitamina D na saúde global do doente de risco cardiovascular


Entre os dias 7 e 10 de fevereiro, a Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH) organizou o 13.° Congresso Português de Hipertensão e Risco Cardiovascular Global. Por esta ocasião, a Jaba Recordati promoveu uma conferência onde se discutiu a importância da vitamina D nos doentes com risco cardiovascular. A sessão foi moderada pelo Dr. Fernando Pinto, cardiologista no Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga, e contou com a intervenção do Prof. Doutor Miguel Melo, endocrinologista no Serviço de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC).


 

A Fisiologia da Vitamina D

"A vitamina D é uma hormona produzida maioritariamente (80%) no corpo humano através da exposição da pele à radiação ultravioleta", introduziu o Prof. Doutor Miguel Melo.

Sobre o metabolismo desta hormona, o endocrinologista explicou que existe uma primeira hidroxilação no fígado, na posição 25, que dá origem à 25-hidroxivitamina D, "a forma não ativa e que se deve dosear para saber qual o status de vitamina D de um determinado indivíduo".

Posteriormente, há uma segunda hidroxilação a nível renal, que origina a forma ativa 1,25-dihidroxivitamina D que "vai ter uma série de ações" no organismo.

Prof. Doutor Miguel Melo | Endocrinologista

Prof. Doutor Miguel Melo

 

Fig. 1 - Fisiologia da Vitamina D

Fisiologia da Vitamina D

 

A Prevalência de Deficiência de Vitamina D

Na perspetiva do palestrante, é importante distinguir "a deficiência e a insuficiência de vitamina D". "A deficiência está definida como valores de 25-hidroxivitamina D inferiores a 20 ng/ml ou 50 nmol/L e a insuficiência como valores abaixo de 30 ng/ml ou 75 nmol/L". Para atingir o objetivo de 20 ng/mL, "durante o inverno é necessário ingerir em média 800 UI/dia de vitamina D. Contudo, os estudos epidemiológicos mostram que na generalidade dos casos ingere-se apenas 200 UI/ /dia, o que leva a que a prevalência de deficiência de vitamina D seja tão elevada", salientou.

 

Tabela 1 - Doseamento de 25-hidroxivitamina D

Estado Deficiência Insuficiência Suficiência
25-HIDROXIVITAMINA D < 20 ng/mL
< 50 nmol/L
20-29 ng/mL
< 75 nmol/L
30-150 ng/mL
75-375 nmol/L

 

Como Dosear a Vitamina D?

Relativamente ao "doseamento da vitamina D, é preciso ter em consideração que se estão a dosear valores em ng/ml e isso quer dizer que ou existem métodos de doseamento ótimos ou o fator de erro pode ser grande". De acordo com o especialista, é vantajoso "dosear a hormona que é inibida por ansa de feedback pela própria vitamina D, a paratormona (PTH)". Em termos práticos, "sabemos que quando há insuficiência de vitamina D, a PTH aumenta". Assim "uma PTH elevada numa pessoa saudável deve-se, até prova em contrário, à carência de vitamina D", isto se os níveis de cálcio forem normais.

 

A Vitamina D e os efeitos Músculo-Esqueléticos

Em relação aos efeitos no músculo e no osso, o Prof. Doutor Miguel Melo lembrou que "a vitamina D aumenta a densidade mineral óssea". A suplementação com esta hormona "demonstrou a redução do risco de quedas, particularmente em idosos, pois está associada a uma melhoria da força muscular e do equilíbrio", acrescentou.

 

A Vitamina D e os Efeitos Cardiovasculares

Comparativamente aos efeitos músculo- -esqueléticos, os efeitos da vitamina D na doença cardiovascular "são mais complexos", uma vez que esta é "uma doença multifatorial", indicou o preletor. Como já foi referido, os níveis baixos de vitamina D levam a um aumento da PTH que, por sua vez, entre diversos efeitos, "ativa o sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA)"(Fig.2).

 

Fig. 2 -  Mecanismo do aumento de risco cardiovascular por aumento da PTH

Mecanismo do aumento de risco cardiovascular por aumento da PTH

 

Para além da influência sobre o SRAA, "a vitamina D tem também uma ação inibitória da formação das células espumosas, uma ação anti-inflamatória direta e antitrombótica e modula vários fatores de risco cardiovascular, sendo a hipertensão aquele que está melhor estabelecido". A título de exemplo, o endocrinologista fez referência à meta-análise "Vitamin D and risk of future hypertension: meta-analysis of 283.537 participants", que concluiu que "o risco de hipertensão futura reduz-se em 12% por cada aumento de 10 ng/ml dos níveis de vitamina D".

Com o objetivo de mostrar as consequências nefastas que a deficiência de vitamina D pode ter para o sistema cardiovascular, o palestrante apresentou um caso clínico referente a um "doente com três meses, cuja mãe andava completamente coberta 365 dias por ano, que sofreu uma paragem cardiorrespiratória". O lactente "tinha sido alimentado exclusivamente com leite materno e não fazia nenhuma suplementação". Aquando da paragem cardiorrespiratória, apresentava uma hipocalcemia grave, um valor de vitamina D muito baixo e uma cardiomiopatia dilatada, com uma função deficiente do ventrículo esquerdo. O doente recuperou e "houve uma melhoria gradual da função cardíaca com a correção da deficiência de vitamina D", destacou.

Posteriormente, o Prof. Doutor Miguel Melo apresentou um ensaio clínico publicado recentemente, janeiro de 2019, "Vitamin D Supplements and Prevention of Cancer and Cardiovascular Disease", que avaliou "a administração de 2000 UI/dia de vitamina D versus placebo em mais de 25.000 indivíduos". Sob o ponto de vista cardiovascular, "não houve redução de eventos ao longo do tempo de seguimento dos doentes (5,3 anos) com a suplementação com vitamina D". No entanto, "apenas 7.7% dos doentes apresentavam deficiência de vitamina D (uma realidade completamente diferente da nossa), portanto é perfeitamente plausível que não tenha havido benefícios em termos cardiovasculares", clarificou.

 

Fig. 3 - Efeitos da vitamina D a nível cardíaco

  • Efeitos anti-hipertróficos
  • Regulação do turnover da matriz extracelular
  • Regulação do fluxo de cálcio
  • Modulação da contractilidade do músculo cardíaco

 

A Vitamina D e o Cancro

O Prof. Doutor Miguel Melo falou também sobre a associação entre valores baixos de vitamina D e o cancro. Sobre este assunto, o endocrinologista indicou que "existem vários estudos publicados". Um exemplo é a meta-análise "The impact of vitamin D pathway genetic variation and circulating 25-hydroxyvitamin D on cancer outcome: systematic review and meta-analysis", onde se observou "uma redução de 26% no que diz respeito à mortalidade e de 16% no que diz respeito à progressão tumoral" nos doentes com maiores níveis de vitamina D.

 


O Colecalciferol (Vitamina D3) é a forma sintetizada pelo seu ser humano, a mais eficaz e a que tem uma semivida mais longa e um excelente perfil de segurança


 

A Importância da Suplementação com VItamina D

Na última parte da sessão, o endocrinologista fez referência à importância da suplementação com vitamina D. Começou por referir que o colecalciferol (vitamina D3) é a forma sintetizada pelo ser humano, a mais eficaz e a que tem uma semivida mais longa e um excelente perfil de segurança. No caso do ergocalciferol (vitamina D2), explicou que é proveniente "do componente alimentar vegetal". Quanto ao cacifediol, que é a 25-hidroxivitamina D, afirmou que, "em termos de perfil de segurança, tem maior risco de hipercalcemia". Por fim, explicou que "o calcitriol é a 1,25-dihidroxivitamina D e que, por ser a forma ativa, tem riscos mais elevados de hipercalcemia e hiperfosfatemia".

 

Como fazer a suplementação com Vitamina D

COLECALCIFEROL
VITAMINA D3
CALCIFEDIOL
25-HIDROXIVITAMINA D3
CALCITRIOL
1,25-DIIHDROXIVITAMINA D3
  • MAIS EFICAZ
  • SOBREVIDA MAIS PROLONGADA
  • PERFIL DE SEGURANÇA EXCELENTE: CURVA DOSE- -RESPOSTA NÃO LINEAR
  • É A FORMA DE SUPLEMENTAÇÃO RECOMENDADA 1
  • PERFIL DE SEGURANÇA: CURVA DOSE-RESPOSTA LINEAR, RISCO DE HIPERCALCEMIA
  • RESERVADO PARA: INSUFICIÊNCIA HEPÁTICA, DEFICIÊNCIA DE 25-HIDROXILASE, MÁ ABSORÇÃO DE VIT D3, OBESIDADE 1
  • PERFIL DE SEGURANÇA: RISCO ELEVADO DE HIPERCALCEMIA E HIPERFOSFATEMIA
  • RESERVADO PARA: INSUFICIÊNCIA RENAL CRÓNICA E HIPOPARATIROIDISMO 1

 


Que doses de Colecalciferol utilizar?

Para início do tratamento da deficiência estão recomendadas doses de:

> 22.400 Ul a 50.000 UI semanalmente (8 semanas)

> 5.000 a 6.000 Ul diárias (8 semanas)

Ao fim deste tempo devem utilizar-se doses de manutenção:

> 800 a 1.600 UI/dia

> 22.400-50.000 UI a cada 4 semanas1


 


Mensagens-Chave

  • A prevalência de deficiência/insuficiência de vitamina D na população geral e, em particular, na população idosa, é elevada.
  • Os diferentes métodos de doseamento de vitamina D podem originar resultados díspares. Os valores da PTH ajudam a esclarecer um valor borderline.
  • A vitamina D desempenha um papel crucial na saúde musculo-esquelética.
  • Os estudos de associação e vários mecanismos bem estabelecidos fundamentam o papel da vitamina D no risco cardiovascular global. Faltam estudos de intervenção bem desenhados que esclareçam o papel da correção da deficiência de vitamina D.
  • A vitamina D está implicada nos mecanismos de resposta imunológica e na ongénese/progressão tumoral.

 

Referência

1. Cesareo R et al. Italian Association of Clinical Endocrinologists (AME) and Italian Chapter of the American Association of Clinical Endocrinologists (AACE) Position Statement: Clinicai Management of Vitamin D Deficiency in Adults. Nutrients 2018 Apr 27;10(5)

 


 

Fonte: in Médico News | 30-04-2019