01 MAIO 2020

Sob o Signo do Vírus

Ninguém antecipou que o que está a acontecer fosse possível. O mais assustador nesta pandemia é o risco de mortes, o impacto sanitário que provoca no sistema hospitalar, o desconhecimento total da doença (da sua gravidade, da forma como se transmite, entre muitos outros pontos), a rapidez com que se espalha por inúmeros países, o pânico que se instalou pela "energética" reação das autoridades chinesas no início da crise, as teorias da conspiração que ouvimos, a inexistência de uma vacina ou um tratamento que erradique esta doença, a falta de liderança dos países, bem como as consequências económicas, sociais, políticas, antropológicas que estamos a sentir mas que se vão intensificar.

«A Humanidade vai sobreviver, mas num mundo diferente»

 

Na nossa companhia, no imediato, sendo uma situação excecional e grave, entrou em funções o comité de gestão de crise, pronto para tomar medidas em conjunto com os nossos headquarters em Milão. Implementámos no início do mês de março um plano de contingência baseado nas recomendações da DGS e da Recordati Group. Neste momento, estamos na fase C do plano, ou seja, temos toda a equipa a trabalhar de forma remota e a seguir de forma escrupulosa as instruções das autoridades sanitárias. Por outro lado, temos um desafio gigante, pois a nossa atividade é considerada essencial neste período. Sem medicamentos não se salvam vidas. Portanto mantemos rotatividade de funções e responsabilidades, bem como comunicação permanente entre todos os colaboradores e os nossos parceiros.

Sabemos que a pandemia sanitária está já a decorrer, mas a "epidemia económica" vai começar. Não podemos ainda conhecer a dimensão desta crise. Iremos ter resultados muito positivos por agora, pois o medo gera correria às farmácias, para "stockar" medicamentos com receio de ruturas. No entanto, de seguida iremos sofrer as consequências de elevados stocks no mercado, diminuição dos atos médicos e consultas programadas e falta de poder de compra. Isso irá gerar certamente uma crise grave no setor.

80% dos nossos colaboradores não podem contactar os técnicos de saúde. Estamos a lançar dois produtos novos que deveriam ter regularidade de informação, mas não têm. No entanto, no nosso ADN corporativo estão dois elementos fundamentais para superar os momentos de crise: as pessoas são o mais importante fator da nossa organização e tentamos sempre converter uma dificuldade numa oportunidade, com o respeito pela gravidade da crise que estamos a passar.

 

A mudança no supply chain vai ser radical, ao nível do fabrico, com a diversificação das fontes, promovendo a reindustrialização da Europa

 

Para já, iremos tentar manter o contacto com os nossos stakeholders de forma remota, através de ferramentas de e-detailing e marketing digital, garantindo que a informação sobre os nossos medicamentos está sempre disponível. Para além disso, a nível de supply chain, estamos a garantir que não teremos ruturas de medicamentos de forma a assegurar que os cidadãos que mais precisam de nós - os doentes - neste momento, estejam tranquilos e vejam as suas necessidades servidas. A Recordati Spa fabrica os seus produtos maioritariamente na Europa e, até este instante, não temos problemas de fabricação ou fornecimento relacionados à situação do coronavírus. Os nossos headquarters possuem um plano de contingência de negócios em vigor e estão a monitorizar a situação cuidadosamente.

Por outro lado, a Recordati decidiu também participar neste esforço da comunidade e ofereceu já 5 milhões de euros a hospitais que necessitavam, bem como medicamentos essenciais de forma gratuita. As corporações devem, especialmente nos momentos difíceis, devolver á comunidade e sociedade muito do que já receberam destas. Devem também, no final da pandemia, promover a serenidade e capacidade de adaptação resiliente necessárias, com o foco no bem-estar dos cidadãos e na promoção de um ambiente de negócio saudável.

Quanto aos cidadãos, é imperativo que respeitem as recomendações da Direção Geral da Saúde (quer ao nível da higienização, isolamento e de contacto social), que são fundamentais para erradicar esta doença. Mas também que atuem de forma responsável, caso existam dúvidas sobre se são transmissores ativos deste vírus, promovendo o auto isolamento. A transmissão na comunidade é inevitável, mas pode ser reduzida ou anulada se respeitarmos as recomendações das Autoridades de Saúde. Muito importante é evitar as fake news e apenas valorizar fontes de informação credíveis. Finalmente, não atuar como disseminadores de situações de pânico.

O Estado, para além das medidas sanitárias que está a tomar, tem de tornar-se um parceiro das empresas e apoiá-las, reduzindo a burocracia normal de um Estado pesado e lento, suportando as empresas e os seus trabalhadores (nomeadamente as pequenas e médias), apoiando na gestão da tesouraria, flexibilizando medidas de incentivo económico que estimulem o consumo quando a crise passar. Pode ainda reduzir o impacto fiscal negativo na vida das empresas e garantir medidas de proteção laboral. O Estado tem, no curto prazo, de "despejar" dinheiro na economia e conseguir tranquilizar as empresas neste momento disruptivo.

No médio e longo prazo, a pandemia do coronavírus é um teste à cidadania: entre o totalitarismo (exemplo chinês que colocou um chip em cada cidadão para controlar a epidemia) ou o empowerment dos cidadãos (exemplo Sul Coreano) / o isolamento dos países (exemplo os EUA e a Rússia) ou a solidariedade global (exemplo europeu). Mas é também um teste à capacidade de adaptação social das comunidades, das organizações, dos cidadãos e dos trabalhadores. Iremos certamente assistir a uma mudança radical na forma como trabalhamos em todos os setores e também na indústria farmacêutica. Novas dinâmicas como:

  • O teletrabalho sedimentar-se-á (com vantagens ao nível do meio ambiente e vida em sociedade), mas sempre sem perder o cunho humano latino do outro lado do ecrã (ou seja, as máquinas não vão substituir o ser humano, pelo menos para já);
  • Os dados dos técnicos de saúde e a sua proteção vão ter um valor cada vez maior;
  • As abordagens aos técnicos de saúde sem valor acrescentado irão desaparecer, pois o conceito de "visita médica me too" vai desaparecer;
  • Os eventos e congressos científicos vão ter que ser adaptados às novas dinâmicas que irão resultar do acordo global sobre viagens. Muitos deles desaparecerão, outros adoptarão novos formatos;
  • O conceito de "pay per performance" dos medicamentos tem de ser real, acelerando o acesso ao mercado dos novos medicamentos;
  • A mudança no supply chain vai ser radical, quer ao nível do fabrico, com a diversificação das fontes, promovendo a reindustrialização da Europa (reduzindo a dependência da China e de outros mercados);
  • A forma como iremos fazer chegar os medicamentos aos cidadãos vai-se agilizar;
  • A telemedicina vai ser uma realidade cada vez mais constante, nomeadamente em consultas de follow-up e doenças crónicas;
  • Os acordos de cooperação entre empresas concorrentes vão ser cada mais recorrentes, quer na fase de I&D, quer na fase de comercialização;
  • Os meios de diagnóstico e de avaliação da condição médica, á distância, irão ter uma profusão elevadíssima, permitindo monitorizar a mesma mas também os hábitos de vida prejudiciais;
  • Os dados que os Estados possuem, sobre a condição de saúde, têm de ser transformados em informação útil (através da inteligência artificial) para tomar decisões estratégicas e não apenas para reduzir despesas;
  • As guidelines e os consensos científicos terão de utilizar dados reais e não apenas evidências científicas in vitro;
  • A inteligência artificial irá acelerar as fases de investigação de novas moléculas;
  • Os Estados irão pensar no financiamento da Saúde no médio prazo com orçamentos plurianuais.

 

O meu desejo é que ultrapassemos este período crítico. Sabemos que a "tempestade" vai passar e a Humanidade vai sobreviver, mas num mundo diferente. Não podemos é perder o contexto essencial, como alguém disse:

 

Este vírus é obviamente um enorme desafio: médico, político e, talvez mais importante, social e económico. Mas vale a pena lembrar que o mundo nunca teve melhores ferramentas para combatê-lo!

 


 

Fonte: Revista Marketing Farmacêutico