31 OUTUBRO 2017

Que tipo de Saúde queremos ter?

Nelson Pires | Diretor Geral - Jaba Recordati

Nelson Pires | Diretor Geral da Jaba Recordati

Todos os doentes têm que ter o mesmo nível de acesso à melhor tecnologia de saúde disponível e ao melhor tratamento possível.

 

Quando nos lembramos que em 1960 a nossa esperança média de vida era de 64 anos e em 2015 de 81,3 anos, temos de nos congratular por vivermos mais e melhor. As causas estão identificadas: temos melhores técnicos de saúde, melhores tecnologias de diagnóstico e melhores medicamentos. E queremos continuar a viver mais e melhor, envelhecer com saúde!

Para isso muito contribui a Indústria Farmacêutica (IF), com investimentos gigantescos na Investigação e Desenvolvimento (I&D) de novos métodos, novas tecnologias e novos medicamentos. Mas como agentes económicos que somos, temos de remunerar os nossos investidores que, não o sendo, vão colocar o seu capital noutra indústria, acabando com a possibilidade de ainda conseguirmos melhores milestones na saúde dos portugueses.

Essa é a primeira conclusão relevante a retirar: a IF, na qualidade de agente económico, tem de ter lucros, sendo que apenas investe em I&D (a título de exemplo, em Portugal, investimos anualmente 75,1 milhões de euros) porque tem resultados positivos.

Acresce que quanto mais vivemos, mais gastamos. Porque queremos viver até mais tarde e queremos viver melhor. E isso custa dinheiro. Mas, acima de tudo, é um direito dos cidadãos na sociedade como a concebemos. Por outro lado, torna-nos mais competitivos como país, pois proporciona melhores recursos produtivos e gera capacidade de arrasto do setor face aos outros. Esta é a segunda conclusão relevante, a de que o envelhecimento tardio é uma opção da sociedade e, como tal, deve estar disposta a pagar por isso.

A terceira conclusão respeita ao estado social – a discriminação positiva dos doentes não deve existir. Ou seja, todos têm que ter o mesmo nível de acesso à melhor tecnologia de saúde disponível e ao melhor tratamento possível.

Se aceitarmos as três conclusões atrás referidas, então temos que resolver o problema de fundo do subfinanciamento crónico da saúde, pois já definimos o tipo de saúde que queremos ter. Não é possível aceitarmos que a dívida em medicamentos às empresas farmacêuticas em Portugal tenha chegado aos 800 milhões de euros, sendo, normalmente, superior a 400 dias. O Governo tem de criar um mecanismo que permita ao SNS saldar todas as dívidas aos privados e criar regras para a criação de nova dívida. Pois como agentes económicos que são, vivem dos seus resultados e com isso investem em I&D, mas também pagam salários. Agora imagine o que seria se tivesse de esperar 400 dias para receber o ordenado deste mês…?

Também não é possível que mais de um terço dos medicamentos inovadores (36%) – que solicitaram financiamento público – continue a aguardar decisão, totalizando 58 medicamentos; e que destes 38% não têm alternativa terapêutica disponível. Isso significa que os doentes podiam ser tratados, ou melhor tratados, e não estão a sê-lo. Assim, a nossa opção de garantir o acesso efetivo dos portugueses à inovação em saúde – através de uma avaliação centrada no doente – fica coartada administrativamente.

Não quero aqui fazer a apologia do bom e do mau, sendo a IF o bom e o Estado o mau. Até porque existem muitos bons exemplos de boa gestão e de bons profissionais naquilo que apelidamos de Estado. Pretendo sim, e acima de tudo, exigir como cidadão e gestor, que se efetue uma reflexão aprofundada sobre qual o contrato social na saúde que pretendemos no futuro e se o podemos pagar ou não.

 


 

In Jornal Económico Online (O) - Jornal Económico Online | 31-10-2017

São estas as palavras de ordem dos empresários sobre o que será determinante para o sucesso empresarial em 2021. Um ano em que se prevê a manutenção do nível de investimento, melhorias operacionais e especial atenção à segurança dos trabalhadores.

 

Nelson Pires

General Manager Jaba Recordati

Vou ter "saudades do meu futuro" é a grande conclusão das expectativas deste barómetro. Apenas cerca de 16% dos empresários esperam diminuir o investimento em 2021, querendo investir em eficiência operacional, no crescimento orgânico ou no lançamento de um novo produto. O que significa que existe confiança (provavelmente originada pela chegada da vacina da COVID-19) e que as expectativas para as suas empresas, são melhores do que as que tinham em 2021.

No entanto sabemos também que apesar da confiança, esta está abalada por duas preocupações notórias: a manutenção dos postos de trabalho e a incerteza das previsões económicas e da procura. Ou seja, uma confiança desconfiada. Demonstra que temos uma liderança positiva que quer manter os colaboradores mas que tem dificuldade em fazer o seu plano de negócios.

E claramente contrariado pelos resultados de saúde pública do início do ano, com números muito negativos no controle da pandemia e um confinamento espera do de 30 dias que ninguém antecipava.

Daí a expectativa de que as inúmeras medidas anunciadas, de apoio à recuperação económica, cheguem realmente à economia. E este factor é preocupante, pois conhecemos a incapacidade de execução da administração pública portuguesa, bem como as dificuldades de acesso aos fundos estruturais da dita "bazuca Europeia". Mas para além destas soluções de estímulo, a solução poderia advir pela via da redução da despesa fiscal, que continua altíssima e não privilegia novos investimentos que em muito podem ajudar a economia a crescer.

Por isso mesmo, apesar da confiança inicial, a grande maioria dos empresários estima que a economia vai crescer muito menos do que o Governo, até porque a opinião é de que o efeito positivo da vacina apenas se verificará no final de 2021. Assim nem em 2023 estaremos ao nível de 2019. Portanto apesar de existir confiança e vontade de investir, os empresários consideram que a procura e o crescimento económico vão ser tímidos, pelo que o optimismo empresarial é incerto.

Parece ser claro para a generalidade dos líderes empresariais que a imunidade conseguida através da vacinação só se fará sentir no final do ano ou em 2022

E é mesmo visto como uma oportunidade para repensar o modelo de negócio e tornar a organização mais flexível e resiliente. Em conclusão, este barómetro, é bastante paradoxal, pois afirma o mesmo e o seu contrário. E julgo que este cenário apenas reflecte a dificuldade que os empresários e gestores têm de prever actualmente, em que a única certeza que existe é um mundo de incerteza. Portanto muitas expectativas e nenhuma certeza, o que faz com que todos tenhamos saudades do nosso futuro (para que este presente passe rapidamente).

 


 

Ler artigo na íntegra em Executive Digest


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