O mercado português do medicamento, altamente regulamentado, tem vindo a adaptar-se às novas tendências que as tecnologias e os perfis de consumo trazem. Mas será que as cadeias de abastecimento estão a responder à altura das grandes mudanças que se têm verificado?

Com o advento de maior velocidade de resposta da logística, tem existido um investimento crescente em sistemas de informação capazes de fazer subir os níveis de serviço. Acresce que, com o ritmo de resposta cada vez mais na berlinda, ganhos de eficiência obtidos ao longo da cadeia têm que ser potenciados por uma maior visibilidade, um dos pontos fulcrais para o sucesso de uma operação.

O complexo mercado do medicamento envolve diferentes etapas e, na maioria das vezes, variadas empresas em cada uma dessas etapas. Acontece que unificar todos os sistemas informáticos e codificações usados ao longo da cadeia pelos diferentes players, tanto na gestão de stocks como no picking, nas entregas, na faturação e noutras áreas, tem sido um verdadeiro pesadelo e uma das razões para existirem ainda ineficiências operacionais.

Como indica Manuel Pizarro, general manager da Advanced Products Portugal, «a gestão de stock é um problema das empresas, mas a partir do momento que as decisões estejam à rapidez de um click, toda essa gestão tem de ser integrada com resposta imediata». E o mesmo responsável lembra ainda que «a logística inversa dos pedidos vai ser uma realidade com o crescimento das entregas, logo só com uma total harmonização de sistemas se pode conseguir eficiência. Uma má experiência por parte do utilizador pode implicar a não repetição do pedido, por isso as empresas terão de se habituar a abrir a sua informação para facilmente fluir na operação».

A falta de padronização e serialização está a condicionar a eficiência logística no setor da Saúde e mais especificamente nas áreas dos medicamentos e dispositivos médicos. É verdade que as empresas do setor farmacêutico investiram e investem consideravelmente na implementação, consolidação e refinamento das suas complexas cadeias de abastecimento. O enquadramento regulatório obriga a que hoje façam mais um esforço para investir em tecnologias de serialização e codificação que permitam a rastreabilidade não apenas dos lotes mas dos próprios fármacos individualmente. A isto acrescem mudanças no ambiente de negócio com fortes implicações para as margens e os preços. Não é fácil, neste contexto, avançar com mais investimentos para ultrapassar as questões da padronização, ainda para mais num campo tecnologicamente avançado que tipicamente tem custos elevados.

 


A serialização que irá avançar é vista como um primeiro passo para a eventual rastreabilidade de todas as embalagens


 

Falsificados impulsionam padronização

Falar de track and trace é olhar para informação, dados e interconetividade. A visibilidade ao longo da cadeia logística só é produtiva se a informação que está disponível for aproveitada e convertida em dados úteis, em leitura e entendimento do que esses dados indicam e em aplicação de soluções para eventuais constrangimentos.

Como explica Manuel Pizarro, os ganhos operacionais são de vária ordem, incluindo «processos fluidos através da padronização, mais segurança e fiabilidade das informações e ganhos na gestão de armazenamento através de controlo de stocks partilhados». Na sua opinião, estes investimentos vão requerer uma «associação corporativa com decisões conjuntas para o interesse de todos. A própria negociação terá de ter, por trás, uma estratégia conjunta». No campo da distribuição, é expectável que a digitalizaçào melhore «o tracking de rotas e todo o tipo de monitorizações que possam estar ao serviço dos clientes».

Essa tendência para uma maior colaboração entre todos os componentes da cadeia será mesmo uma realidade. Com a entrada em vigor da nova legislação europeia marcada para 2019, os diversos atores do complexo mundo do medicamento em Portugal concordaram, em 2016, em assumir a solução blueprint e os standards promovidos pela GS1 como ponto comum para permitir a implementação de um enquadramento mais vasto tendo em vista acompanhar a transposição do regime europeu de medicamentos falsificados. A serialização que irá avançar é vista como um primeiro passo para a eventual rastreabilidade de todas as embalagens.

Já em julho deste ano, no IV Seminário de Saúde da GS1 Portugal, então a oito meses de distância da implementação da Diretiva Europeia dos Medicamentos Falsificados, se ficava a saber que as empresas presentes estavam longe de afirmar que tinham tudo pronto para responder à entrada em vigor da nova legislação, prevista para fevereiro de 2019.

 

10 mil milhões de embalagens

Não é um número pequeno o da quantidade de embalagens que vão passar pelo processo de serialização. São 10 mil milhões no caso dos medicamentos sujeitos a receita médica, num processo que envolve mais de seis mil laboratórios farmacêuticos em toda a Europa.

O uso de um código bidimensional para identificação única de cada embalagem é uma das medidas incluídas no novo enquadramento e a responsabilidade desta implementação cabe ao fabricante do medicamento. É um entre vários mecanismos que as autoridades europeias esperam ser a machadada final no comércio paralelo e ilegal de medicamentos contrafeitos. Os sistemas usados, entre eles o código Datamatrix da GS1, vão possibilitar o registo de informações numa base de dados pan-europeia e, se for registada alguma irregularidade ou um medicamento fora do prazo, o sistema reage emitindo um alerta.

Além de se responsabilizar pela serialização, cabe a quem produz medicamentos selar o produto e introduzir os identificadores no Sistema de Verificação de Medicamentos Europeu, também denominado European Hub. No passo seguinte da cadeia, cabe ao distribuidor ou grossista ser capaz de ler o código 2D e analisar se a sua informação está conforme, validando-a através do Sistema de Verificação de Medicamentos Nacional. Se não há qualquer alerta, o produto pode seguir para o consumidor. No caso de haver uma sinalização, então será aberta uma investigação para confirmar se se trata ou não de um medicamento falsificado e a comunicação com a Organização de Verificação de Medicamentos Europeia cabe apenas e em exclusivo ao titural de Autorização de Introdução no Mercado.

Como se imagina, tanto os produtores como os distribuidores e grossistas têm que ser capazes de produzir e processar informação contida nos códigos, através de diferentes aparelhos e softwares que irão ter que transmitir informação entre si. É, por isso, necessário um investimento massivo de todo o setor do medicamento para garantir maior segurança.

O interesse no desenvolvimento deste tipo de soluções levou inclusive muitas empresas do setor da Saúde a associarem-se à GS1, que num universo de oito mil empresas em Portugal, conta com cerca de 300 associados ligados ao setor. A contrafação é um problema contido na União Europeia, estimando-se que represente perto de 3% do total de fármacos movimentados.

 

Abastecimento com ruturas

O nível de serviço bastante elevado do setor da distribuição e logística farmacêutica em Portugal faz supor que o País está livre de problemas na cadeia de abastecimento de fármacos mas os dados do INFARMED colocam algumas reticências a esta avaliação. Em média, em Portugal, ocorrem seis ruturas de stock graves no fornecimento de medicamentos todas as semanas, de acordo com as estatísticas da própria entidade reguladora. Também numa semana, existem outras seis ruturas de risco médio e ainda 30 de curta duração. Somando estes números, facilmente se chega a um total de ruturas por ano que ultrapassa os 2.200 casos.

Recentemente, os meios de comunicação social portugueses abordaram a falta de medicamentos para os doentes de Parkinson, no seguimento do perigo de rutura do medicamento Sinemet.

São variadas as causa de tantas interrupções no fornecimento. Por vezes é um problema de produção, outras vezes a iniciativa parte das próprias empresas farmacêuticas e há que contar com constrangimentos no transporte ou armazenagem e com irregularidades ou não conformidades encontradas pelas inspeções do regulador.

É verdade que, na grande maioria dos casos, existe no mercado uma alternativa e, para o prescritor ou para o farmacêutico, não é difícil substituir um medicamento por outro similar. Em determinados casos, a solução passa por importar medicamentos para substituir os que faltam, recorrendo a uma autorização de utilização especial. No mercado nacional esta solução foi utilizada em nove ocasiões em 2018, essencialmente nas áreas terapêuticas de oncologia, antibióticos, antimaláricos, terapia hormonal, medicamentos para o alcoolismo e corticosteroides.

As ruturas de curta duração têm habitualmente como causas constrangimentos logísticos de vária ordem e indicam que há ainda trabalho a fazer para tornar mais eficiente a cadeia de abastecimento.

 


Alloga e Logifarma unem forças

É a novidade de 2018 até ao momento, no setor da logística farmacêutica: a aliança entre a Alloga e a Logifarma, que avança no dia 1 de janeiro.

AAlliance Healthcare e a Iberfar chegaram a acordo para a criação de uma sociedade comum entre a Alloga e a Logifarma, a qual terá uma participação de 51% da Alliance Healthcare e de 49% da Iberfar. Em comunicado, Pedro ferraz da Costa, presidente do conselho de administração da Iberfar, explica que «um dos principais ativos desta parceria são os colaboradores de ambas as empresas, que desempenharão um papel essencial para o sucesso deste projeto. A nova sociedade trabalhará num processo de transição que garanta o reforço das relações existentes com os parceiros de negócio e que garanta proximidade acrescida e satisfação das suas necessidades e expetativas». Esta fusão encontra-se ainda sujeita à autorização da Autoridade da Concorrência.

A Alliance Healthcare é detida em 51% pela Associação Nacional das Farmácias e em 49% pela Walgreens Boots Alliance. A Alloga é um operador pré-grossista detido em 100% pela Alliance Healthcare e tem a sua operação centrada num armazém com capacidade para 8.500 euro paletes em Cabra Figa. A Logifarma, operadora logística fundada pelos grupos Iberfar e Jaba, tem a sua operação localizada em Sintra, num armazém com capacidade para 25.000 euro paletes.


 

Mais pressão com ambulatório

Como se a cadeia logística já não estivesse sob intensa pressão pelos níveis de serviço que são requeridos no setor das farmácias, também os avanços e recuos das políticas do medicamento causam impacto nos processos. O projeto-piloto de dispensa de medicamentos antirretrovirais recorrendo ás farmácias comunitárias, que se iniciou em 2016 e decorreu no hospital Curry Cabral, em Lisboa, contando com o envolvimento de 29 farmácias próximas dos locais de residência de 43 pacientes, mostrou as vantagens da entrada do segmento no mercado ambulatório. Metade dos doentes participantes passaram a dirigir-se a pé à farmácia para ir buscar a sua medicação. Em Portugal, este tipo de medicamentos é de dispensa exclusiva em ambiente hospitalar e a iniciativa do Ministério da Saúde pretendeu avaliar eventuais ganhos da passagem destes fármacos para as farmácias. O estudo mostra que o tempo de deslocação e de espera diminui drasticamente quando os doentes se deslocam à farmácia em vez do hospital e a sua satisfação com a maior privacidade garantida pela farmácia é também um fator importante.

Para Manuel Pizarro, a potencial entrada destes medicamentos no canal Farmácia é vista com otimismo. «Seria ótimo, mas terá sempre de ser altamente regulamentado e monitorizado. A própria Indústria terá de se reinventar para se virar e servir o B2C. Tendo sempre em conta que não pode implicar riscos para a Saúde Pública».

Olhando para a bigger picture, o general manager da Advanced Products Portugal considera que «só com grandes reportes e investimentos avultados, os medicamentos de precisão poderão chegar ao máximo de pacientes. Só grandes programas e apoios estatais muito bem delineados, poderão atavancar a Indústria e os operadores para isto se tornar uma realidade. Neste momento o orçamento dos sistemas como o SNS são altamente rígidos e por vezes insuficientes». Em Portugal, em 2016 havia cerca de 34 mil portadores de VIH, dos quais 31 mil estavam a ser tratados com antirretrovirais. Além desta medida, o programa do Governo prevê também a transferência da terapêutica oral em oncologia para as farmácias.

 


Vários especialistas apontam para uma evolução do mercado farmacêutico no sentido de uma criação de valor através de outros ativos que não o medicamento


 

O tesouro escondido

Um dos alvos principais dos distribuidores, grossistas e operadores logísticos é o SNS. Em Portugal, a subcontratação da logística do setor público de Saúde está nas mãos do fornecedor do medicamento que é quem contrata o transportador ou armazenista e coloca o produto no hospital. A atividade logística fica assim circunscrita à entrada da unidade hospitalar, daí em diante cabe aos serviços de cada hospital toda a gestão do medicamento.

Aos serviços farmacêuticos de cada unidade hospitalar cabe a aplicação das boas práticas de armazenamento e distribuição do medicamento mas com milhões de unidades dispensadas por ano, nos maiores hospitais públicos e centenas de milhares nos hospitais que servem populações urbanas mais pequenas, torna-se muito difícil às equipas farmacêuticas hospitalares uma gestão logística eficiente. Ainda para mais sabendo-se que os medicamentos são entregues em caixas à entrada do hospital e toda a logística interna dos fármacos dentro da instituição é baseada na unidade. Há por isso, logo à partida, a necessidade de retirar das embalagens os medicamentos e coloca-los num formato unitário assim que entram nos serviços, o que não é uma tarefa nem fácil nem produtiva para quem tem que realizar tarefas bem mais importantes, como avaliar pedidos especiais ou desenvolver fórmulas para doentes específicos.

A logística farmacêutica é pois um grande desafio para o SNS mas é, acima de tudo, uma oportunidade para os operadores. Não por acaso, uma das primeiras medidas defendidas pelo presidente da Associação de Distribuidores Farmacêuticos (ADIFA), logo em 2017 quando a entidade foi criada, passava precisamente por reforçar a vontade dos distribuidores em ajudar o Ministério da Saúde na estratégia de transferir medicamentos de âmbito exclusivamente hospitalar para as farmácias comunitárias, além de manifestar a disponibilidade para participar na logística dentro do próprio SNS. Esse parece ser o caminho para obter ganhos e diminuir constrangimentos e riscos na cadeia de abastecimento dos hospitais e centros de saúde públicos. Assim o defende Manuel Pizarro, para quem «a Saúde tem que chegar cada vez a mais pessoas». Apesar dos «orçamentos rígidos» nesta área, o general manager da Advanced Products Portugal defende que «serão bem-vindas concessões bem regulamentadas, com o apoio da experiência e eficiência dos privados. Não tenho qualquer dúvida que este será o caminho para eficiência, logo, bons concursos poderão trazer a boa experiência dos melhores operadores na logística in house, mas repito; terá que haver sempre por trás dessa decisão, rácios de produtividade e responsabilidade em cada decisão e penalizações e riscos partilhados entre as partes terá que ser uma realidade».

Outra novidade legislativa que vai impactar a logística do setor farmacêutico está ligada à planta cannabis sativa. Depois da controvérsia política que envolveu a proposta de legalização, a aprovação de nova legislação que enquadra a canábis, a 18 de julho, veio abrir a porta à utilização de medicamentos, preparações e substâncias à base da planta para fins medicinais, regulando a sua prescrição e dispensa nas farmácias.

Com a entrada em vigor no dia 1 de agosto, este novo enquadramento jurídico prevê que os fármacos ou preparações à base de canábis, sujeitos a autorização prévia emitida pelo INFARMED, devem ser dispensados nas farmácias mediante apresentação de receita médica especial e comprovando-se a identidade do utente. O diploma enquadra também a contribuição do Laboratório Militar de Produtos Químicos e Farmacêuticos para a produção deste tipo de fármacos. Trata-se de mais um conjunto de produtos farmacêuticos que vem aumentar a complexidade da cadeia de abastecimento no setor da Saúde.

 

Onde está o valor?

As mudanças não se ficam por aqui. Há várias incógnitas atualmente quanto aos modelos a seguir para criar valor ao longo da cadeia do medicamento.

Vários especialistas apontam para uma evolução do mercado farmacêutico no sentido de uma criação de valor através de outros ativos que não o medicamento. A resposta das farmácias comunitárias portuguesas, por exemplo, tem sido apostar na evolução para os serviços e para uma crescente valorização da experiência de consumo.

Na própria IF global, equaciona-se atualmente o potencial da venda direta ao consumidor para cortar com intermediários e maximizar as vantagens trazidas pela tecnologia.

Há também especialistas que apontam para um cenário de "uberização" dos negócios, onde o outsourcing das diferentes áreas não core permite centrar recursos no que é realmente importante para a marca.

Certezas existem muito poucas mas em cada contacto com os profissionais da Saúde sente-se no ar que se está a viver um momento de transição, um daqueles períodos que marcam e que vão ditar o cenário das próximas décadas nos modelos de negócio do setor.

 


 

Fonte: Marketing Farmacêutico - Especial Logística Farmacêutica | 01-09-2018