14 JULHO 2020

MF Talks: Humanizar a Tecnologia

A covid-19 provocada pelo novo coronavírus SARS-COV-2 trouxe alterações dramáticas ao estilo de vida global e começam a instalar-se hábitos que antes não existiam, no que se denomina como nova normalidade. Conhecer o impacto da pandemia nas empresas da IF e nas suas equipas foi o tema da 12ª Conferência MF Talks, que respeitou o recolhimento, decorrendo pela primeira vez num formato online.

Humanizar a Tecnologia

O quotidiano que conhecemos nas últimas décadas pode nunca voltar a ser igual. A covid-19 trouxe grandes mudanças, não só ao dia-a-dia das pessoas mas também às organizações e à forma como comunicamos.
O uso da máscara por exemplo, primeiro estranha-se depois entranha-se e já ninguém prescinde dela nas lojas ou nos transportes públicos. Em janeiro ou fevereiro poucos anteviam este seu uso generalizado e os stocks não foram acautelados. Resultado? Uma escalada de preços nunca antes vista para estes produtos, açambarcamentos pontuais e a necessidade de legislação específica que veio a entrar em vigor em meados de abril, colocando em 15% a margem de lucro, não apenas das máscaras como também no caso do álcool.

Com a implementação de medidas restritivas à circulação de pessoas para conter a propagação do vírus, muitas lojas de rua fecharam as portas e muitas indústrias suas fornecedoras pararam de produzir. Como em todas as situações de crise, há sempre quem tenha visão para aproveitar as dinâmicas do mercado. Algumas empresas nacionais perceberam a oportunidade e adaptaram as suas linhas de produção, parcial ou totalmente paradas, para iniciar o fabrico de máscaras ou viseiras e assim garantir entrada de capital. Tudo isto se verificou num curto espaço de tempo, numa questão de semanas e todo um novo negócio emergiu como fulcral, não só para combater o contágio viral mas também para garantir a sobrevivência dessas empresas e dos seus postos de trabalho.

A questão das máscaras serve apenas como um exemplo, entre muitos, da disrupção que a pandemia trouxe. A pressão sobre os negócios, as organizações e a força de trabalho, tem sido enorme nos últimos meses. É a capacidade de responder à mudança e a resiliência das empresas e das pessoas que garante a continuação dos negócios na esperança de que tudo volte a ser como dantes. Apesar do retorno expectável a uma certa normalidade que hoje se vive, com muitas empresas a implementarem planos para que os seus colaboradores voltem gradualmente aos escritórios, é na incerteza do que trará o futuro que se vai voltando ao trânsito nas estradas, aos elevadores partilhados diariamente e aos espaços de trabalho ou lazer onde há poucos meses todos trocavam apertos de mão, beijos ou abraços.

Resultados vão descer

No início da sua apresentação, Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati não podia ter sido mais explícito quanto ao que a IF sentiu no início da pandemia: «fomos apanhados com as "calças na mão". De um momento para o outro, a IF passou do face-to-face para o online e para o trabalho remoto».

Além disso, Nelson Pires destaca como no início da pandemia «todos acharam que íamos vender mais. Em março parecia que sim, mas em abril chegaram os números negativos. O que aconteceu foi o armazenamento de medicamentos por parte da população, tal como fizeram para os alimentos ou o papel higiénico». Por isso, Nelson Pires considera que «o mercado vai ter um resultado negativo no final do ano, porque vai haver menos poder de compra e também porque os dados das consultas e das cirurgias mostram um decréscimo do acesso dos doentes aos postos onde vão buscar as suas terapêuticas».

Segundo revelou o responsável da Jaba Recordati, apesar de «todas as empresas terem gabinetes de crise, ninguém podia prever o que aconteceu com a pandemia».

No caso da empresa que lidera, o primeiro trimestre de 2020 estava a correr de forma positiva, «tínhamos lançado dois produtos e fomos mesmo apanhados de surpresa. Na nossa estratégia o face-to-face era muito importante e além disso tínhamos a mudança de escritório programada para a última semana de março, do Lagoas Park para o Tagus Park, o que tornou as circunstâncias ainda mais complexas». Ainda assim, Nelson Pires revela que, «fruto de uma grande equipa, conseguimos replanear tudo em três dias e a 15 de março conseguimos estar a trabalhar no novo escritório».

Como é que a Jaba Recordati respondeu ao contexto disruptivo? «Todos os nossos trabalhadores têm ao dispor tecnologia que permitiu uma continuidade mais fácil. Temos intranet, temos uma importante ferramenta que é a autorização do RDGPD, que nos permitiu contactar os nossos clientes remotamente (a empresa tem uma base de dados com 8 000 contactos autorizados)», explica Nelson Pires. Também lembra como num primeiro momento, «na reação à pandemia o nosso objetivo era proteger os colaboradores, os nossos clientes e depois, numa segunda fase, pensar no que fazer a seguir. Optámos por não recorrer ao layoff e, que eu saiba, 95% das empresas da IF evitou o layoff».

 

Volume de contactos estável

Durante os primeiros tempos de confinamento, «a minha grande dúvida era: o que vamos comunicar?», recorda Nelson Pires, adiantando que «tomámos uma série de medidas rapidamente, investimos em testes aos colaboradores e suas famílias, preparámos stocks para poder continuar a providenciar os nossos medicamentos aos profissionais de Saúde e aos utentes. A nossa força comercial foi alvo de várias iniciativas de formação, na verdade não estávamos preparados para lhes dar outra coisa, por isso foram muitas sessões sobre os mais variados temas, mas foi muito importante manter essa comunicação interna em funcionamento, numa estrutura que é muito flat».

A empresa, com sede em Milão, «o centro da pandemia em Itália», cedo se colocou na linha da frente da ajuda para enfrentar o problema. «Só em Portugal já doámos 2,5 milhões de euros», recorda Nelson Pires, afirmando que a pandemia demonstrou como «a nossa atividade é fundamental para os técnicos de Saúde e as nossas equipas devem acrescentar valor». Nesse contexto, tornou-se prioritário para a Jaba Recordati desenvolver soluções que tornassem a comunicação mais eficiente. «Criámos o RecordatiSmart e utilizámos duas ferramentas muito importantes, a newsletter e a gamificação de conteúdos. Estamos a dar ferramentas aos profissionais para poderem comunicar melhor com os clientes e temos garantido uma média de 2,9 contactos por dia, o que é positivo, apesar de estar ainda abaixo do face-to-face».

Com a evolução da doença controlada em Portugal e a perspetiva de um desconfinamento progressivo que irá durar alguns meses, Nelson Pires considera que:

«É preciso decidir um plano, coordenado pela APIFARMA, que formalize, em conjunto as entidades de Saúde, o regresso ao face-to-face», defendendo porém que isso «só faz sentido se pudermos fornecer testes individuais». Na sua opinião, a opção será «regressar num primeiro momento aos locais de menor risco e depois irmos trabalhando de forma progressiva com as restantes instituições, sempre defendendo a Saúde dos nossos profissionais». Sobre o sentimento vivido pelos profissionais da sua equipa, Nelson Pires revela: «há uma sensação de tragédia, as equipas comerciais nestas condições são muito genuínas. Tentamos tratar muito bem os nossos colaboradores, contratamos uma empresa para um programa de well being e desenvolvemos ainda muitas atividades de responsabilidade social, porque queremos que os nossos trabalhadores tenham gosto em trabalhar na empresa».

Soluções tornam-se permanentes

No âmbito da organização e gestão, Nelson Pires refere que a equipa «começou a gerir por projeto e menos por hierarquia, escolhendo quem tem mais competência para gerir o projeto». O responsável máximo da Jaba Recordati acredita mesmo que a pandemia «vai mudar muito a hierarquia da IF, que é muito formal».

Outro ponto salientado por Nelson Pires é que, apesar do regresso à visita médica, «a nossa empresa vai integrar essa presença com o remoto e testar, a ver se funciona sem ser sob pressão». Também a integração de «colaborative robotics para ajudar os profissionais a fazer budgets e a gerir em tempos de crise, criando cenários para tomar melhores decisões» foi uma resposta que ganhou pertinência no contexto da pandemia.

A flexibilidade tem sido a principal característica que permite à Jaba Recordati ultrapassar o momento que se vive. «Atuámos de uma forma em março e estamos a atuar de outra forma em abril e em maio», afirma Nelson Pires, lembrando que, para garantir uma melhor capacidade de resposta, «sabemos o que cada tipo de cliente quer e como quer. Muitos dizem que gostavam que as nossas equipas voltassem ao terreno».

Como é que a Jaba Recordati vai comunicar a partir daqui? «Vamos apostar muito mais na social media e espero que a nossa reputação como indústria cresça. Não tenho dúvidas que vamos viver numa sociedade diferente, em que a confiança e a credibilidade vão ser os fatores mais importantes», defende Nelson Pires.

 


 

Leia o artigo na íntegra na revista Marketing Farmacêutico