03 MARÇO 2017

JABA quer crescer com novos medicamentos e internacionalização

A faturação da farmacêutica portuguesa JABA Recordati cresceu 6% no ano passado, face a 2015, a um ritmo mais de quatro vezes superior ao da economia, para 40,3 milhões de euros, num quadro marcado pela redução continua dos preços dos medicamentos.

Este crescimento é sustentado pela introdução de novos medicamentos e pela aposta em novos mercados, que serão, também, os motores para o desenvolvimento em 2017.

No ano passado, salienta-se o lançamento, em setembro, de um novo medicamento indicado para o tratamento da disfunção eréctil, que, por ser administrado através de um creme, veio revolucionar o tratamento desta condição. Para este ano, a JABA prepara-se para lançar em Portugal mais um produto inovador indicado no tratamento da disfunção sexual mais comum no homem, que afeta um em cada três homens em idade sexual ativa: a ejaculação precoce.

O novo produto, cuja venda estará condicionada a prescrição médica obrigatória, deverá estar disponível no mercado a partir de setembro, será de aplicação local, sob a forma de spray, e custará cerca de 35 euros. Lançado simultaneamente em toda a Europa, o novo fármaco será vendido em embalagens para um mês de tratamento.

Em entrevista ao Jornal Económico, Nelson Pires, diretor-geral da empresa, afirmou esperar “um ciclo de vendas muito lento para o novo produto”. “Por um lado, porque não é comparticipado, e, por outro, porque está indicado para uma condição que para a maioria da população não é vista como doença, tratável com recurso a fármacos”, explicou.

Nelson Pires falou também sobre o medicamento para a disfunção eréctil, lamentando o atraso, por parte das autoridades portuguesas, na aprovação do reembolso correspondente a 37% de comparticipação do preço do medicamento. Este atraso limitou as expectativas de vendas do produto, que ficaram aquém das projeções da empresa de 1,5 milhões de euros, caso fosse comparticipado pelo Estado.

 

Reforçar presença nos mercados africanos

Além dos medicamentos para as disfunções sexuais mais prevalentes no homem, a JABA prepara o lançamento de um outro, disruptivo, indicado no tratamento da esquizofrenia, que estará disponível no mercado ainda este ano e que promete alavancar as vendas da empresa.

Outro dos pilares de crescimento da empresa farmacêutica é a aposta na consolidação da presença internacional, que já é responsável por cerca de 8% da faturação da companhia.

A JABA está presente nos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP) e Angola é principal destino das exportações da empresa e o objetivo é manter a esta posição.“[É] um mercado de que toda a gente se queixa, mas que foi onde mais crescemos em 2016, com vendas que atingiram 2,5 milhões de euros, destaca Nelson Pires. A meta para este ano é alcançar um crescimento de 10% nos mercados dos PALOP. Mas sáo sé os próximos passos passam por estender a operação a novos mercados africanos, nomeadamente Mauritânia e Nigéria, sendo que neste último país, a opção vá ser, não uma operação própria, mas o licenciamento de produtos a parceiros locais.

“[Temos] a convicção de que podemos acrescentar valor. Cerca de 60% do vendemos [em unidadesj é produzido em Portugal”, sublinha o gestor

Apesar de integrar uma multinacional, a JABA adquire os seus produtos em Portugal, depois de, em 2008, já sob controlo italiano, ter vendido a fábrica que detinha ao grupo Tecnimede. Tem como fornecedores empresa como a Generis, Azevedos, Basi, Lusomedicamenta e Medinfar. A Recordati representa cerca de 40% dos fármacos que a JABA comercializa.

A opção por adquirir em Portugal, quando poderia optar por outros mercados, muito mais competitivos do que o nacional é justificada por Nelson Pires com a manutenção da indústria e a sua qualidade.

"[Temos] a convicção de que podemos acrescentar valor, ajudando a manter uma indústria que produz de acordo com os mais elevados padrões de qualidade. Cerca de 60% do vendemos em unidades] é produzido em Portugal”, sublinha o gestor.

Em termos globais, a filial portuguesa da Recordati, é responsável por 3,7% da faturação global da multinacional com sede em Milão, Itália, que em 2016 atingiu 1,1 mil milhões de euros.

 

JABA comemora 90 anos de vida

JABA é o acrónimo de José Antórno Baptista de Almeida, farmacêutico na Farmácia Universal, em Usboa, que decide fundar a empresa que leva as suas iniciais e que se dedica, inlcíalmente, ao comércio de medicamentos. Isto aconteceu em 1927, faz agora 90 anos. Produz também alguns medicamentos, com vendas que atingem algum relevo durante a II Guerra Mundial.

Pouco depois, nos anos 50, desenvolve a produção com contratos de licença de fabrico e distribuição com outras empresas e, no inicio da década de 80, constrói uma fábrica na Abrunheira, em Sintra. Esta unidade fabril é reforçada no início do novo século com uma nova fábrica, vocaclonada para o fabrico e embalagem de comprimidos, cápsulas e saquetas (líquidos e sólidos.

Em 2006, a família do fundador - José de Almeida tem a curiosidade de ser avó do ator Joaquim de Almeida vende o negócio ao empresário Joaquim Coimbra que, meses depois, revende-o aos italianos da Recordati. E é já com o grupo transalpino nos comandos que é vendido o setor de produção ao grupo Tecnimode, passando a empresa a comprar os produtos a este e outros fabricantes nacionais de medicamentos.

 


 

Autor: Miguel Múrias Mauritti

Fonte: Jornal Económico Online (O) - Jornal Económico Online- 03-03-2017

Se houve uma área que o país definiu como prioritária na resposta à pandemia de covid-19, foi a cadeia de abastecimento do medicamento. Depois de anos de alertas em que os especialistas falaram de resiliência, flexibilidade e redundância, esta pandemia colocou em xeque a área logística.

Com um impacto transversal em todo o circuito farmacêutico, a «nova normalidade» fez sobressair a capacidade de resposta de um setor habituado a elevados padrões de exigência, mas também colocou a nu opções estratégicas que é preciso repensar.

Impacto Viral

A cadeia de abastecimento farmacêutica é das mais reguladas em Portugal e no mundo, é movida pela procura e tem elevada complexidade operacional por questões técnicas e de segurança. Tem de ser fluida e ultra eficiente para responder às necessidades dos clientes e garantir controlo e visibilidade ao longo de todos os elos da cadeia, desde o sourcing à produção, passando pelo armazenamento e distribuição dos produtos. É uma das áreas de atividade mais eficientes e isso não se consegue sem esforço.

Agora imagine-se que todo o contexto muda. As fronteiras fecham, a população fica em casa, a circulação é altamente controlada e resume-se a bens essenciais, mas, ao mesmo tempo, por todo o país, pela Europa e pelo mundo, a Saúde passa a ser uma urgência, uma questão de sobrevivência. A pressão colocada sobre as cadeias de abastecimento do setor farmacêutico nunca foi tão grande. Neste ambiente tão peculiar e desconhecido, é imperioso manter o acesso dos doentes aos medicamentos, seja no ambiente hospitalar ou nas farmácias.

Doentes agudos e crónicos precisam de terapêuticas e, apesar de muitos negócios terem suspendido a atividade, o setor farmacêutico ganhou em 2020 uma relevância inesperada. O real impacto da pandemia na cadeia de abastecimento das empresas da Indústria Farmacêutica (IF) e nos próprios fornecedores logísticos só daqui a vários anos poderá ser compreendido. Para já, uma ideia sobressai: está a ser transversal.

 

Minimizar efeitos adversos

A pandemia atual tem um impacto estrutural em muitos setores, provocando ondas de choque em toda a sociedade e em toda a economia. Para as empresas da IF, o confinamento, o fecho de fronteiras e as novas regras sanitárias trouxeram grandes desafios, desde logo ao nível da gestão de recursos humanos e dos contactos com clientes, mas também nas componentes operacionais e em particular na cadeia logística. A adaptação e a flexibilidade para contornar estes tempos difíceis constituem a única resposta possível.

Para o Diretor Geral da Jaba Recordati Portugal, Nélson Ferreira Pires, «a covid-19 teve um impacto enorme na nossa operação, de forma transversal». Intitulando-se um «apologista de um mundo livre no comércio e circulação de mercadorias, com regras justas para todos», o mesmo responsável admite, contudo, que esta crise veio demonstrar a teoria de que «a dependência extrema de um fornecedor, já ensinava isso o Professor Porter, é uma fraqueza estratégica que tem de ser resolvida. Que é o que acontece com os medicamentos, nomeadamente os de menor valor acrescentado».

 

«A Europa não pode estar dependente de dois países para fabricar os seus medicamentos que são administrados em grande escala, sem alternativa de fabrico»
Nelson Pires

Adianta que «o risco de saúde pública, económico e político é gigante. Mais quando num dos países as regras são pouco claras (China) e noutro (Índia) existem algumas dúvidas sobre a qualidade dos processos».

Conforme revela, uma das principais adaptações resultantes da pandemia foi feita ao nível da gestão de stocks. «Para evitar as consequências de uma rutura de stocks, julgo que todas as companhias farmacêuticas aumentaram consideravelmente os seus stocks, no nosso caso em seis meses, provocando um impacto negativo ainda maior no cash flow, já impactado pela redução de vendas que a pandemia está a gerar».

 

Emergência duplicou fluxos

O alastrar da doença e as suas consequências para a saúde das populações, obrigou o Estado português a decretar o Estado de Emergência nacional, iniciando assim um período de máxima contenção para combater o vírus, com claro impacto nas operações logísticas.

 

Oportunidade na mudança

A pandemia de covid-19 está a obrigar as empresas a repensarem conceitos até aqui dados como adquiridos e a população tem a ideia de que com uma crise sanitária os lucros da IF vão disparar. Nelson Pires, da Jaba Recordati Portugal, esclarece que isso está longe de ser verdade. «Todos pensam que por existir uma pandemia a IF está a ficar multimilionária, mas não está. A redução de consultas e acesso ao médico em mais de 35% faz com que os doentes não sejam tratados, mas também que a IF não venda medicamentos». Contudo, o mesmo responsável garante que «esse é um problema menor face ao não tratamento dos doentes».

Na sua opinião, estabelecer prioridades vai ser fundamental. Perante esta nova realidade «há claramente que efetuar a SWOT das principais moléculas e definir o grau de risco face à importância das mesmas na vida dos doentes. A Comissão Europeia tem como objetivo reindustrializar a Europa e estes medicamentos devem estar incluídos nesse plano, ficando nós com duas fontes de fornecimento». Neste contexto, Nélson Pires acredita que:

«a Portugal pode caber um papel fundamental de desenvolvimento para produção de pequenos lotes que, devido ao seu consumo mundial, são considerados pouco atrativos para fabricar em escala, mas que podem ser "gigantes" para fabricar em Portugal e dinamizar a industria do medicamento, bem como o fabrico de biotecnologia e dispositivos médicos com valor acrescentado».

Uma porta que se abre num ambiente tão hostil.

 

Operações adaptam-se

Se para a IF os desafios desta apelidada «nova normalidade» se concentraram em encontrar soluções num modelo de negócio desenhado para os contactos diretos com prescritores e, por outro lado, na necessidade de rever estratégias logísticas de gestão de stock e compra de matérias primas, no campo dos operadores que fornecem serviços à IF este foi o tempo de adaptar as operações para garantir fluxos sem quebras, aplicando planos de contingência e aprofundando a comunicação com os diferentes parceiros.

Padrões elevados

O reconhecimento de que as cadeias de abastecimento farmacêuticas estão hoje amplamente globalizadas e baseiam-se no sourcing em países com padrões de nível de vida bastante distantes dos europeus, fez surgir as dúvidas sobre a contaminação de matérias-primas provenientes de regiões do mundo altamente afetadas pela pandemia.

Para Nélson Pires, convém lembrar que:

«A nossa Indústria sempre primou pela qualidade. Ao nível do manuseamento dos APIs e outras substâncias, está tudo muito bem documentado nas GMP (Good manufacturing Practices) que as empresas são obrigadas a seguir. Arrisco-me a dizer, que esta indústria é a mais bem regulamentada ao nível do fabrico, sendo que a qualidade e o seu controlo são fundamentais».

Por isso, na sua opinião «não existiu um acréscimo de receio sobre contaminações provenientes do estrangeiro, porque essas já estão previstas nas GMP. Existiu sim um maior controlo de segurança sobre as pessoas envolvidas no transporte das mercadorias, no fabrico, etc., mas em prol da saúde das mesmas e como forma de prevenção de disseminação de surtos».

 

Visibilidade reforçada

O controlo dos vários elos da cadeia de abastecimento farmacêutica passa pela capacidade de seguir os fluxos nas diversas fases. A visibilidade e a rastreabilidade são dois termos que já há mais de uma década fazem parte do léxico logístico deste e de outros setores de atividade, mas, no difícil contexto deste 2020, a verdade é que ganharam um novo alento.

Como se o desafio das fronteiras fechadas não fosse já de si enorme para as empresas, a IF e os seus parceiros logísticos tiveram de responder a um forte aumento da procura. Cientes do risco de ruturas, nos primeiros tempos da pandemia as populações acorreram em massa às farmácias para adquirir medicamentos e criar ou reforçar o seu próprio stock particular, aumentando assim a necessidade de resposta por parte do setor farmacêutico.

Isso mesmo recorda Nélson Pires, afirmando que:

«A cadeia do medicamento e nomeadamente a logística sempre foram fundamentais, agora ainda mais um pouco».

Assumindo que essa atividade «viveu um momento de reorganização quando, no início da pandemia, houve um consumo extra de medicamentos. Julgo que, de repente, dobraram os pedidos e o processo de distribuição quase colapsou».

Felizmente, conta o Diretor Geral da Jaba Recordati Portugal, houve «a sensatez de definir prioridades e os medicamentos passaram a ser entregues e distribuídos diariamente, os OTC e outros passaram a "não prioritários" e não tinham, em alguns casos, distribuição diária».

Hoje o problema é outro. «Esse momento passou e agora vivemos o cenário oposto, pois todas as companhias aumentaram os seus stocks e agora estes operadores vivem com um problema de falta de espaço, pelo que estamos a gerir em conjunto este problema».

No âmbito das parcerias com os fornecedores de serviços logísticos, e fruto de «uma visão integrada da nossa companhia» em que a logística, apesar de subcontratada, «é um elemento crucial na nossa cadeia de valor», a empresa concordou mesmo em «suportar o custo extra que estes parceiros tiveram (horas extra, realinhamento de turnos, etc), pagando mais pela distribuição durante este momento crítico».

 

Rastreabilidade dá garantias

A organização da cadeia de abastecimento na área farmacêutica obriga a uma estreita relação entre os diferentes parceiros intervenientes, respeitando a regulamentação em vigor. Uma das regras essenciais para o total controlo das mercadorias movimentadas é a rastreabilidade.

 

Flexibilidade e resiliência

Nélson Pires admite que «existem desafios óbvios como o patient centricity e a last mile delivery que deverá proporcionar maior comodidade ao cidadão ou a digitalização do setor, recorrendo à inteligência artificial (mais em particular, às tecnologias blockchain e IoT) de forma a garantir prioridades, rastreabilidade, qualidade do produto e participar na racionalização de gastos».

 

Aumenta a armazenagem

Do ponto de vista operacional, uma das tendências que se verificaram logo desde o início da pandemia foi o aumento dos stocks no país. Para as empresas do setor farmacêutico e não só, criar um nível de stock local confortável para enfrentar períodos mais ou menos longos de encerramento de fronteiras internacionais tornou-se uma prioridade à qual tiveram que responder os fornecedores logísticos.

 

Ensaio contra a Covid

Nos próximos meses vai surgir um novo desafio, espera-se que mais cedo do que tarde, a toda a cadeia de abastecimento do medicamento. Com vários laboratórios em fases avançadas de desenvolvimento de uma vacina para a covid-19, os países preparam-se para a distribuição em larga escala dessas terapêuticas.

Segundo Nélson Pires, o futuro coloca várias questões. Desde logo a necessidade de:

«Repensar o modelo de negócio com parcerias público-privadas, por exemplo, na entrega da vacina, bem como a criação de um modelo de emergência que existia mas não estava adequado a uma pandemia como esta, garantindo a sua sustentabilidade e eficiência».

A estas soluções, o responsável da Jaba Recordati Portugal junta «a imposição de metas eco-responsáveis», para concluir que «são inúmeros os desafios para a logística, quase tão grandes como o que a IF enfrenta na pesquisa da vacina».

 

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