28 SETEMBRO 2017

Investigadores da Faculdade de Medicina da UC ganham bolsas de investigação

Investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) e do Serviço de Urologia e Transplantação Renal do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) foram distinguidos com bolsas de investigação e prémios no Congresso da Associação Portuguesa de Urologia.

 

Edgar Tavares da Silva | Vera Marques | Arnaldo Figueiredo | Hugo Antunes

 

Foi atribuída a Bolsa de Investigação APU/Jaba Recordati Urologia 2017, no valor de oito mil euros, ao projeto "O futuro da terapêutica oncológica aplicado ao tumor da bexiga - plasma medicine". O objetivo principal do trabalho, liderado por Edgar Tavares da Silva, é provar a eficácia e a segurança da aplicação intravesical de meios ativados com plasma num modelo animal de tumor vesical.

Foram também atribuídas duas Bolsas de Investigação APU 2017, no valor de oito mil euros cada, aos projetos "Assinatura metabólica do cancro da bexiga - Estudo translacional com impacto na resposta à terapêutica", coordenado por Hugo Antunes, e "Biópsias líquidas para o tratamento personalizado no tumor da bexiga", liderado por Vera Marques.

As equipas de investigação vão ser coordenadas cientificamente pelos docentes Arnaldo Figueiredo e Filomena Botelho, em resultado da parceria estabelecida entre o Serviço de Urologia e Transplantação Renal do CHUC e o Instituto de Biofísica com o Laboratório de Bioestatística e Informática Médica, a Unidade Multidisciplinar de Investigação Biomédica e o Laboratório de Citogenética e Genómica da FMUC.

Ao nível de investigação clínica, foram premiados os trabalhos "Predicting factors of unexpected hospital return following transurethral resection of bladder tumor" (2º Prémio de "Melhor Cartaz"), da autoria de Vera Marques; "Ex vivo repair and autotransplantation for complex renal artery aneurysm" (1º Prémio de "Melhor Vídeo Cirúrgico"), da autoria de Miguel Eliseu; "Deep infiltrating rndometriosis - Urinary tract involvement and predictive factors for major surgery" (Prémio de "Melhor Artigo do Ano"), da autoria de Maria José Freire. Estes trabalhos são coordenados pelo docente Arnaldo Figueiredo.

 


 

in Atlas da Saúde e Notícias de Coimbra | 28-09-2017

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

A crise do COVID-19 destapou um problema iminente, desconhecido para a maioria e que os restantes não falam dele: a dependência da Europa e dos EUA em relação à China e à Índia, na produção de produtos farmacêuticos é elevadíssima. Em algum momento na cadeia de valor do medicamento, estes 2 países contribuem com alguma atividade ou produção fundamental (no fabricos dos princípios ativos, formulações, excipientes, etc).

As empresas farmacêuticas multinacionais já não lidam com todas as etapas do processo de fabrico de medicamentos, e focam a sua atenção na I&D, externalizando tudo o resto. Por exemplo, os medicamentos antirretrovirais utilizados em todo o mundo para combater a SIDA, são 80% fabricados para todo o mundo por empresas farmacêuticas indianas. No Brasil, a Índia produz 94% dos medicamentos que tratam a hipertensão, diabetes e outras doenças.

No entanto, esta cadeia de intrincada de fabrico, esconde outro dado muito importante, pois a própria Índia depende em 70% do fornecimento de produtos chineses para a fabricação desses mesmos medicamentos. Por isso mesmo,  sentiu os efeitos da crise, quando começou a epidemia na região de Hubei e as atividades foram paralisadas e viu o seu mercado interno a não ser abastecido. Por isso, de forma a proteger os doentes indianos, proibiu as vendas ao exterior de 14 ingredientes ativos e suas formulações derivadas, incluindo paracetamol e vários antibióticos.

Provocando a rutura nos mercados Europeus e Americanos.

Em suma, a Índia é considerada a farmácia do mundo, pois representa cerca de 20% das exportações globais de medicamentos (em termos de volume), e esta depende da China no supply chain. Com benefícios relevantes para estes países, pois a Índia e Singapura têm o mais alto racio de balança comercial positivo no segmento Farmacêutico, quase 90% de exportações e apenas 10% importações, em valor.

Obviamente a IF retira benefícios desta deslocalização, embora muitas vezes forçada pelos baixos preços na Europa, custos elevadíssimos da I&D e pela quebra de patentes. Atingem-se elevados ganhos de eficiência gerados pela divisão do processo produtivo em segmentos altamente especializados, ligados entre si por uma robusta rede logística que permite às empresas reduzir inventários e adotar um modelo de produção “just in time.

Consegue-se uma combinação de fatores como o acesso a mão-de-obra barata, a redução dos custos com regulação ou a especialização tecnológica.

Tudo em resultados da integração das economias mundiais e da globalização.

Os riscos são, no entanto, elevadíssimos, em ter um sector estratégico como este, dependente de países terceiros, nomeadamente fora da Europa. Algo que o professor Michael Porter já caracterizou há muito tempo, com o seu modelo das 5 forças, aqui caracterízado pela elevada dependência dos fornecedores. Riscos e ameaças como:

 

  • Dependência de terceiros em economias pouco reguladas e com menor respeito pela Propriedade intelectual;
     
  • Riscos de transporte;
     
  • Desrespeito pelas regras ambientais e laborais, com baixos salários;
     
  • Risco de contrafação (a OMS estima que 1% dos medicamentos disponíveis nos países desenvolvidos falsificados; nos países em vias de desenvolvimento cerca de 1/3 dos medicamentos são falsificados);
     
  • Concorrência desleal com apoios à exportação (subsídios estatais);
     
  • Qualidade;
     
  • Criação de “Bottle neck” no supply chain por factores externos (ex Índia restringiu a exportação de pelo menos 26 api’s farmacêuticos e também reduziu sua produção industrial devido às restrições na circulação de pessoas para tentar conter o vírus);
     
  • Dependência externa extrema sem alternativa (As farmacêuticas chinesas fornecem aos Estados Unidos 90% de remédios como antibióticos, vitamina C, ibuprofeno e hidrocortisona, 70% do acetaminofeno e até 45% do heparina);
     
  • Risco destes países de economia centralizada, tornarem-se também dos maiores mercados produtores mas também consumidores, e guiarem-se por fatores políticos e não económicos;
     
  • Dependência em exclusividade gera baixo poder negocial dos preços;
     
  • Riscos da estratégia “Made in China 2025”, com um regime que não respeita as regras dos outros mercados livres, pois não tem um ordenamento jurídico interno que aceita e protege os princípios do Estado de Direito, de livre mercado e concorrência;
     
  • Fragmentação da produção industrial em complexas cadeias de produção internacionais que provocaram a aceleração da desindustrialização e em consequência uma deflação do valor do trabalho na economias Ocidentais;
     
  • Segurança nacional com a informação estratégica (exemplo DNA);
     
  • Técnicas pouco claras: por exemplo, forçar as empresas ocidentais a transferir tecnologia como condição para fazer negócios no mercado chinês: investimentos e aquisições em empresas no Ocidente, possuidoras de tecnologias estratégicas.

 

"Bazuca"

Face a tudo isto, é aqui que deve entrar a dita “bazuca” pela oportunidade gerada nesta crise de encontrar soluções para o “reshoring” nos países Europeus, deste sector estratégico para a economia mas acima de tudo, para a saúde pública.

E como fazê-lo? De forma simples, sem querer inventar a roda com tecnologias pouco demonstradas e caras (como o hidrogénio). Basta que a estratégia da Europa se foque:

 

  • Na produção europeia dirigida para setores estratégicos da área do medicamento (produtos biológicos por exemplo);
     
  • Reindustrialização da Europa em toda a cadeia de valor, do fabrico de APIs ao produto acabado;
     
  • Obrigatoriedade de registo de 2 fornecedores certificados para quem comercializa medicamentos na Europa, sendo um obrigatoriamente Europeu;
     
  • Aumento investimento em I&D, financiado pela “bazuca”;
     
  • Promoção do novo de Investimento directo estrangeiro industrial e obrigatoriamente “verde” e que respeite o meio ambiente;
     
  • Promoção da especialização territorial (fabrico de pequenos lotes de medicamentos essenciais, ficarem concentrados em Portugal, por exemplo; APIs e formulações, genéricos, biosimilares, etc, noutros países com competências prórpias);
     
  • Promoção do turismo médico;
     
  • Incentivo fiscal a novos investimentos industriais e de I&D, com programas similares ao Sifide;
     
  • Desenvolvimento competências nas universidades com a criação de bolsas financiadas pela dita “bazuca”, e obrigatoriedade de retenção dos “cérebros” financiados pela “bazuca”;
     
  • Desenvolvimento da Medicina personalizada, de dispositivos médicos de valor acrescentado e de medicamentos biológicos;
     
  • Atração de ensaios clínicos;
     
  • Garantir Alianças estratégicas com outros blocos geográficos como os EUA ou a América do Sul;
     
  • Garantir cadeias de produção mais curtas, descentralizadas e de dimensão regional;
     
  • Obrigar á separação regulatória vincada entre dois mercados, o chamado “decoupling”das economias (ou seja, por exemplo, a China tem de fabricar na Europa).
     

Em conclusão, uma série de medidas que podem ser financiadas pela dita “bazuca” e sustentada numa visão de longo prazo num sector estratégico, que irá promover a saúde pública, o bem estar dos cidadãos, o emprego, a economia verde, o desenvolvimento sustentável e a inovação.

 


 

Fonte: Executive Digest


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