19 OUTUBRO 2020

Infeções virais podem estar associadas à carência de vitamina D

O webinar organizado este sábado pela farmacêutica Jaba Recordati ficou marcado pela importância da vitamina D na manutenção da saúde pública. De acordo com os especialistas, a suplementação ganha especial força no atual contexto pandémico, assegurando que o confinamento poderá ter provocado elevados níveis de deficiência na população portuguesa.

O evento titulado “Vitamina D – Qual a relevância na Saúde Pública?” faz uma reflexão partilhada sobre o impacto da vitamina D na população em geral, uma questão que aos olhos dos especialistas merece ser discutida devido ao “encerramento” forçado pela Covid-19. Estes argumentam que os efeitos da pandemia afetam milhares de idosos e doentes crónicos que são obrigados a permanecer isolados.

No arranque da sessão é levantada a pergunta “num país de sol como o nosso faz sentido suplementar outros que não apenas os idosos?”. Em resposta o Professor de Reumatologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, José António Pereira da Silva responde que “essa é uma questão colocada por muitos clínicos” e explica que “temos muito sol em Portugal, mas a questão essencial é ‘será que nos expomos o suficiente a ele?'”.

Para defender a importância da suplementação da vitamina D em Portugal, o reumatologista refere que existem evidências científicas que comprovam que uma elevada percentagem de portugueses apresenta valores inadequados. “Nós publicamos este ano um trabalho de grande dimensão em que cobrimos toda a população nacional de todas as idades, com representantes de todos os distritos numa escolha aleatória. Foram analisamos mais de três mil adultos portugueses. As colheitas foram feitas entre 2011 e 2013 onde foi determinada a concentração sérica da vitamina D em cada pessoa”.

 

Portugueses revelam elevados índices de carência de vitamina D

Os resultados obtidos no estudo demonstraram que “nestas três mil pessoas havia de facto uma carência extremamente acentuada de vitamina D na esmagadora maioria da população”. Os números revelaram que mais de 96,4% dos portugueses registava valores insuficientes ou inadequados. No entanto, Pereira da Silva diz que essa mesma insuficiência varia consoante as regiões. “Os Açores têm claramente um nível de carência mais pronunciado do que o Algarve”, sublinhando que a insuficiência da vitamina D é agravada durante o inverno.

O especialista alerta que existe outros fatores de risco que aumentam esta carência incluem a idade avançada, a obesidade e os hábitos tabágicos. “As pessoas com mais de 75 anos tinham um risco de 5,7 vezes aumentado em relação à população entre os 18 e os 29 anos. Ser obeso aumenta o risco de 2,5 vezes. O tabagismo e o sexo feminino por comparação com o masculino têm um efeito idêntico de cerca de duas vezes mais risco”. No entanto, as pessoas com hábitos de vida saudável, como a prática de exercício físico e o consumo de álcool de forma ocasional, tinham menos risco de desenvolver o problema.

O reumatologista alerta, assim, que “a carência de vitamina D é altissimamente prevalente em Portugal”, afirmando que a falta da vitamina provoca pelo menos duas doenças graves: a osteomalácia e a osteoporose. “É um problema gravíssimo numa população envelhecida, como a nossa”.

Sobre a relação entre a vitamina D e a Covid-19, Pereira da Silva conclui que existem estudos que comprovam que “a suplementação adequada permitiu reduzir de 50% para apenas 2% a percentagem de pessoas que precisaram de ser admitidas nos cuidados intensivos”, assegurando ainda que “o número de mortes baixou de 7,7% nas pessoas que tinham recebido placebo para 0% nas que foram suplementadas com vitamina D”.

 

Vitamina D com papel importante em doenças cardiovasculares, diabetes e cancro

As doenças metabólicas e cardiovasculares foram um dos tópicos trazidos a debate. De acordo com Miguel Melo, especialista do Serviço de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra; Faculdade de Medicina, Universidade de Coimbra. Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3S), a deficiência da vitamina D está associada à falta de insulina e ao aumento de complicações cardiovasculares. “Sabemos que a deficiência de vitamina D quer diretamente, quer através do aumento da paratormona vai estar associada. Por um lado, há resistência à insulina e à disfunção da celobeta e tudo isto vai contribuir para o aumento da diabetes tipo 2 e para a dificuldade do controlo glicémico nas pessoas que já têm diabetes”.

O especialista refere que a vitamina D está também associada à inflamação e aos eventos cardiovasculares. Relativamente à associação, Miguel melo explica que “níveis baixos de vitamina D quando comparados com níveis mais elevados associam-se a um maior aumento do risco”.

De forma a demonstrar a importância da suplementação da vitamina D, o especialista referiu dois estudos realizados em 2019 que, apesar de resultados inconclusivos, permitem verificar alguma melhoria em doenças cardiovasculares, diabetes e cancro.

O primeiro estudo citado estava relacionado com a prevenção da diabetes em pessoas com pré-diabetes através da vitamina D, “onde foi verificado que o risco foi menor nas pessoas suplementadas”. O segundo estudo era sobre a prevenção da doença cardiovascular e do cancro, que contou com uma amostra de mais de 25 mil doentes. “Em termos de prevenção cardiovascular,  foi um estudo neutro que não conseguiu mostrar benefícios da suplementação, mas os doentes incluídos no estudo só 7,7% tinha défice de vitamina D.” Relativamente aos resultados sobre o cancro “os resultados são um desafio para interpretar, já que não houve redução do número de novos casos, mas ouve uma redução de 25% na morte por cancro”.

 

Infeções virais podem estar associadas à falta de vitamina D

Sob uma perspetiva de proximidade com os doentes, o Assistente hospitalar graduado de Medicina Interna do Centro Hospitalar Universitário do Porto e Professor do ICBAS, António Marinho falou sobre a forma como a qualidade de vida dos idosos é afetada pelo défice de vitamina D.

Critico sobre a forma como são interpretadas as evidências científicas, António Marinho considera que é necessário olhar para os estudos de forma intensa e não apenas para as conclusões que são obtidas, afirmando que “é preciso ter cautela quando apresentamos estudos”.

“Uma primeira evidência que acho extraordinariamente curiosa que é o facto de muita gente abandonar a terapêutica com estatinas por mialgias. O estudo demonstra uma coisa, que nós já conhecíamos, de facto a mialgias estão muito associadas ao défice de vitamina D e quando suplementamos, a grande maioria das pessoas consegue tomar as estatinas e atingir os níveis terapêuticos que pretendemos na população. É extraordinariamente interessante ver até que ponto podemos levar a evidência e as particularidades da vitamina D”, aponta.

No entanto diz que o estudo “não só tinha pessoas com vitamina D praticamente normal, algo que era absolutamente estranho, como também estudou populações que não tinham risco para eventos cardiovasculares. Quando olhamos para a evidência não parece haver uma diminuição de eventos cardiovasculares naquele período, mas a frequência de eventos cardiovasculares em dois anos numa população saudável é muito baixa. Portanto, não é de prever que qualquer tipo de valorização estatística só com esta chave”. O assistente hospitalar garante que a leitura robótica pode levar a conclusões equivocas.

Sobre as infeções virais, António Marinho diz que podem ter “uma associação forte com o défice de vitamina D”. De acordo com um estudo que está a acompanhar de perto é a primeira vez que verifica que num elevado número de pessoas há uma relação “com a redução da mortalidade, de intervenção e redução de doentes em cuidados intensivos com o facto de fazer um protocolo com vitamina D quando têm infeção Covid-19”.

É neste sentido que o assistente hospitalar realça a importância da suplementação da vitamina D nos idosos, já que são a população mais vulnerável em caso de contrair o novo coronavírus. “Não nos podemos esquecer que a nossa população está envelhecida… vamos ter problemas com isto. Pode ser importante nas infeções virais”.

 

Como dosear e prescrever a vitamina D?

Relativamente ao doseamento e à prescrição, o especialista, Licenciado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Lisboa. Patologista Clínico e Coordenador do Laboratório de Química Clínica do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, João Mário Figueira faz uma abordagem clínica sobre o assunto. 

Questionado sobre como é que deve ser feito o doseamento da vitamina D, o patologista apontou para o facto de existirem dois tipos de métodos: os métodos imunoensaios e de cromatografia líquida. De acordo com o especialista, os métodos de cromatografia líquida são mais eficazes. Este defende que os métodos de doseamento “devem ser capazes de dosear de forma equitativa as duas formas ciculantes hidroxiladas da vitamina D total, a D2 e a D3. Devem ter o menor possíveis de reações cruzadas com alguns metabolitos de ambas as vitaminas”.

João Mário Figueira defende que para garantir o doseamento certo deve haver uma maior participação em programas de certificação da vitamina D.

Sobre os destinatários a vitamina D, defendeu deve de ser prescrito a pessoas idosas.

“É preciso dosear a vitamina D total, vitamina D2 mais vitamina D3. É importante que o laboratório que está a dosear esteja certificado e participe na avaliação externa da qualidade […] Também considero importante a realização de estudos nacionais para a obtenção de valores de referência populacionais referentes às duas épocas do ano, nas diversas regiões geográficas”, conclui o patologista.

 

Pandemia agrava níveis de vitamina D da população

No final da sessão, os especialistas debateram as vantagens e desvantagens da vitamina D no contexto atual de pandemia.

Por um lado, António Marinho chamou a atenção para a forma a vitamina D “tem efeito na tolerância imune, ou seja, consegue reduzir a inflamação, mas, por outro lado, tem um aumento da capacidade microbicida”, ou seja, “aquilo que mata os doentes Covid, a inflamação”.

Já Pereira da Silva defendeu a suplementação universal como forma de prevenção de doenças, inclusive no tratamento da Covid-19. O reumatologista garante que o confinamento geral reduziu de forma exponencial a exposição solar de todos os portugueses e não apenas dos mais idosos. “O confinamento faz temer que a carência de vitamina D deste ano seja mais acentuada do que era nos anos anteriores”.

Miguel Melo conclui que existe por parte das revistas científicas um maior interesse nesta área, afirmando que a vitamina D reduz a hipertensão, um fator de risco em caso de um hipertenso contrair a Covid-19.

O evento que contou com a moderação da jornalista Clara de Sousa quis, através de diferentes perspetivas, promover o debate e aumentar o conhecimento sobre os benefícios da vitamina D para a saúde da população.