22 MAIO 2020

Indústria farmacêutica "terá que se reinventar" no pós-Covid

Como reagiram as farmacêuticas à crise do novo coronavírus?

Ninguém estava à espera desta crise num momento de crescimento, muito mais uma crise deste tipo que era totalmente inesperada para a Europa e outros países ocidentais. Julgo que a indústria farmacêutica de uma forma bastante responsável a esta crise. Colocou todos os seus colaboradores em trabalho remoto (excepto nas áreas fabris) sem recurso a lay-off na maioria dos casos e suportando os custos directos da redução da actividade. Julgo que serão cerca de 8.000 colaboradores a trabalhar de casa, sendo que o trabalhar remotamente na cultura portuguesa é ainda ineficiente e uma pequena parte do sucesso da nossa actividade, essencialmente comercial em Portugal. No entanto, julgo que nos adaptámos mais rapidamente que as outras indústrias. Além disso, os custos de fabrico aumentaram sem que o preço dos medicamentos aumentassem.

A indústria farmacêutica tem um papel ativo de responsabilidade social elevadíssimo e as empresas já contribuíram com mais de 2 milhões de euros para aquisição de EPIs para fornecimento e oferta aos hospitais e centros de saúde.

 

Quais são as expetativas económicas daqui para a frente, nomeadamente no que diz respeito à área I&D?

As expectativas económicas são inevitavelmente de recessão. A minha previsão pessoal é de que o mercado farmacêutico irá cair entre -5% a -7% este ano. A estimativa antes do Covid-19 era de crescimento positivo de +5%. Os motivos são bem claros: redução do poder de compra dos cidadãos e uma redução de quase 500.000 consultas. Verifica-se uma redução no lado da procura de cuidados de saúde e também um esforço do Ministério da Saúde em retomar a atividade normal, mas tem que ultrapassar este receio que existe em 83% dos cidadãos.

Quanto à I&D, as empresas farmacêuticas redirecionaram muitos do seus investimentos para o desenvolvimento de soluções para o Covid-19, atrasando outras áreas de investigação. Estão a ser gastos em I&D nesta área mais do que o Estado Português está a investir na economia e sociedade Portuguesa nesta fase. Portanto julgo que as outras áreas poderão ficar algo esquecidas, e isso mesmo já estamos a verificar, pois alguns estudos clínicos de produtos inovadores que já deveriam ter sido aprovados ou mesmo iniciados ainda não se iniciaram.

 

A indústria terá que se reinventar para responder a esta e outras situações semelhantes no futuro? O que aprenderam com um contexto de pandemia?

Repare que o mapeamento do genoma demorou cerca de 45 dias e a produção de uma vacina estima-se em um ano quando noutros vírus, no passado, demorou-se mais de 5 anos a efectuar este mapeamento e a desenvolver uma vacina. Aprendemos que as verdades absolutas que temos são destruídas muito rapidamente. Temos de cuidar dos nossos colaboradores e dos nossos stakeholders neste momento imediato. Depois temos de tirar as ilações devidas:

A IF terá de se reinventar com os avanços na genética e programação celular: os médicos conseguirão fazer prognósticos acertados da probabilidade de certos doentes terem certas patologias.

A IA assumirá um papel fundamental para acelerar o desenvolvimento de novas soluções de saúde acelerando o mapeamento genético de novos vírus, os processos e mecanismos de acção de novas doenças (ou das existentes), patologias e possíveis soluções.

Os modelos de negócio têm de evoluir da competição entre companhias farmacêuticas para a competição devido aos elevados custos da I&D. A indústria 4.0 trará inovação disruptiva e à 'sensorização'. Essas transformações tecnológicas irão aumentar a produtividade, reduzir custos de produção, maximizar a segurança para o paciente e reduzir os preços de medicamentos.

Os modelos de definição de preços de medicamentos e dispositivos médicos têm de ser alterados, tornando-se mais transparentes. Há também que dinamizar o modelo de e-prescribing e garantir que o Health 4.0 com a informatização dos dados de saúde dos cidadãos permita medir e identificar tendências, avaliar decisões de diagnóstico, prescrição e gestão e até mesmo promover a telemedicina como forma efectiva de acompanhamento dos doentes.

 

Quando fala de desindustrialização na indústria farmacêutica a que se refere?

O que esta crise nos demonstrou foi que o mundo depende de modelos de supply chain no qual não podemos confiar. 20% dos produtos consumidos no mundo dependem, em algum momento, de valor acrescentado pela indústria chinesa. Este não é um Estado aberto e transparente no qual possamos confiar totalmente (este manifesto não é político). Esta dependência nos medicamentos pode gerar crises de saúde pública de dimensões incontroláveis. Acima de tudo porque o modelo de supply chain tem que acreditar na certificação de um país que desconhecemos e em quem não confiamos: quer ao nível do respeito pelo meio ambiente, quer ao nível da falta de controlo (e conhecimento) das condições de trabalho, quer ao nível do controlo das condições sanitárias e das condições mínimas de qualidade. Acrescido pelo facto de não confiarmos nas sua intenções para com o resto do mundo.

Desta forma, é fundamental a reindustrialização da Europa não apenas no fabrico de produto acabado ou de valor acrescentado e tecnologicamente desenvolvido, mas também de produtos e APIs e produtos intermédios de baixo preço, que são parte da cadeia de fabrico de cerca de 50% dos medicamentos que administramos hoje. A Europa tem de se reindustrializar, criando clusters por países, estimulando a economia, mas acima de tudo garantindo a transparência das cadeias de fabrico de um activo fundamental que são as soluções de saúde. A robotização terá aqui um papel fundamental.

 

Que medidas teremos de tomar para acelerar a retoma económica da indústria farmacêutica?

A saúde no seu todo não deve ser sub-financiada como sempre tem sido. Deve ser financiada de acordo com as reais necessidades e o orçamento da saúde deve ser plurianual. Já temos os preços mais baixos da Europa, portanto há que permitir alterar (aumentar quando a referenciação o permita) e não baixar mais os preços dos medicamentos. Pagamos uma taxa inconstitucional (pois não recebemos nenhum serviço em troca), criada no tempo da crise de 2008 de forma temporária. Essa taxa ainda se mantém e não faz sentido, pois trata-se de um rela imposto e a crise acabou já há muitos anos.

Por outro lado, há que pagar a dívida à indústria farmacêutica, que tem mais de 400 dias depois de vencida para pagamento e respeitar os prazos legais de aprovação de novos medicamentos e tornar este processo transparente respeitando a evidência cientifica e colocando o doente no centro do sistema (e não a economia). A indústria já negoceia na processo de aprovação do financiamento dos medicamentos, CAPS limitativos do consumo dos medicamentos por períodos bianuais. Ora, estes CAPS regularmente não são mais reavaliados pela autoridade de saúde, sendo a indústria a ter que suportar os custos dos tratamentos. Muitas vezes tratando-se de multinacionais, torna totalmente impossível a continuidade da operação em Portugal.

Por fim, há que permitir rapidamente (e respeitando claro, as regras da DGS) o regresso no dia 1 de Junho à nossa atividade de visita médica nas instituições de saúde.

 

Há a necessidade de mudança nos processos de trabalho, consequência da Covid-19, como vão as empresas e profissionais da indústria farmacêutica reinventar os processos de trabalho?

Teremos de evoluir para um Smart Integrated Work (no lugar de Omni-Channel Work), incrementando o nosso share of voice através de meios não-presenciais e dos meios digitais. Também acrescentar real valor no contacto com os nosso "clientes" prescritores, bem como maximizando o "customer journey", alterando os KPIs que medem o ROI da nossa actividade. Iremos alterar o modelo de funções alargando-o inclusive à gestão dos stakeholders que tradicionalmente não eram contactados desta forma. Em consequência, a IF irá olhar para cibersegurança com outros olhos, tornando-a um elemento fundamental na vida das empresas.

A importância que as empresas irão dar à requalificação dos seus colaboradores vai ser uma tendência inevitável. E a experiência dos funcionários trará um elevado retorno ao negócio. Alterar o modelo de trabalho prestado com aumento do "remote smart work" e "job sharing".

Saúde e bem-estar voltarão a ser um factor de motivação no trabalho. Com o trabalho remoto, a forma como as organizações podem garantir a produtividade dos colaboradores torna-se crucial. A missão da empresa passará a incluir responsabilidade com todos, não apenas com accionistas e investidores. O foco no futuro da organização de forma sustentável para todos stakeholders mas mensurável no dia-a-dia e não apenas como uma declaração de intenções.

A importância da confiança e credibilidade serão reais no "novo mundo do trabalho".

 


 

Fonte: O Jornal Económico