07 AGOSTO 2020

Equilibrar a vida profissional com a vida pessoal

O diretor geral da farmacêutica Jaba Recordati, Nelson Ferreira Pires, dá uma enorme importância ao equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal. Algo que no seu caso é muito fácil, o que aliás se reflete nas práticas da empresa.

 

Um equilíbrio muito fácil de conseguir

A conjugação entre a vida profissional e a vida pessoal é um tema que Nelson Ferreira Pires considera fundamental. Por vários motivos, que faz questão de enumerar: «respeito pelos nossos colaboradores, que queremos que sejam cidadãos exemplares (e o exemplo vem de cima); a motivação e a melhoria de resultados daí decorrente; e o employer branding que se consegue (com uma retenção elevadíssima dos colaboradores mais valiosos da organização)».

Diretor geral no nosso país de uma prestigiada farmacêutica, a Jaba Recordati, e com responsabilidades a nível internacional, fala assim das estratégias que desenvolvem neste âmbito: «Começamos logo pela definição do departamento interno que gere as nossas pessoas, que se chama Departamento de Recursos Humanos e Cliente Interno. Ou seja, olhamos para os nossos colaboradores como parte fundamental da nossa organização (é um dos três Ps que a sustentam, pessoas/produtos/processos).

Por outro lado, pensamos sempre numa estratégia de work life balance efetiva e não apenas como um conceito sexy muito em voga. Por exemplo:

  • Oferecemos o dia de aniversário a todos os colaboradores;
  • Temos um sistema de regime flexível de horário;
  • Temos a possibilidade de utilização total das nossas viaturas profissionais;
  • Agora, na altura do Covid-19, enviamos máscaras comunitárias não apenas para os nossos colaboradores mas também para todos os seus familiares diretos;
  • Temos um dia em que proporcionamos uma atividade conjunta entre colaboradores e família (a última foi no Jardim Zoológico, que patrocinámos);
  • A nossa reunião anual de gestão inclui a presença da família, a quem apresentamos os objetivos da empresa;
  • Qualquer familiar de um colaborador que visite a nossa sede é recebido pelo diretor geral;
  • Entre muitas outras iniciativas, de forma a consolidar a nossa estratégia dos três Ps.

 

Tudo isto, assinala o responsável, tem sido «muito bem recebido, quer qualitativamente, pelos comentários feitos, quer também pelos critérios quantitativos internos/externos da empresa, ou seja: 

  • Temos um turnover de colaboradores que querem sair muito baixo (menos de 3%), participamos em vários surveys externos e a avaliação dos colaboradores é sempre muito positiva, permitindo inclusive ganhar alguns prémios daí decorrentes;
  • Fazemos uma avaliação anual dos colaboradores com possibilidade de feedback dos mesmos e críticas construtivas sobre a organização;
  • No ano passado fizemos um inquérito com um resultado muito positivo sobre ‘a felicidade dos nossos colaboradores no local de trabalho’ e sugestões (implementámos cerca de 50% das mesmas);
  • E depois temos algo fundamental que se chama smell of the place, ou intuição dos gestores, que nos permite avaliar a alma da organização.»

 

A Jaba Recordati é filial do grupo multinacional farmacêutico Recordati Group, que está presente (direta ou indiretamente) em mais de 130 países.

 

Investiga e comercializa soluções de saúde, «nomeadamente medicamentos que permitem acrescentar mais e melhor vida aos cidadãos», explica Nelson Ferreira Pires, que dá alguns exemplos: «Temos áreas onde somos líderes, como hipertensão, doenças da próstata, dor, gastroenterologia, pediatria e doenças raras.» Em Portugal são 132 os colaboradores, e em todo o mundo mais de 4.000.

O grupo está cotado na Bolsa de Valores de Milão e faturou cerca de 1,5 biliões de euros em 2019, investindo mais de 10% do seu ‘turnover’ em investigação e desenvolvimento (I&D) a cada ano. 

 

Nelson Ferreira Pires diz que no seu caso o equilíbrio entre vida pessoal e vida profissional «é muito fácil», porque adora o que faz e acredita que «a liderança pelo exemplo é um método eficiente».

 

Work Life Balance

Família, livros marcantes e os tempos atuais 

Como foi referido, Nelson Ferreira Pires adora o que faz, pelo que a vida profissional e a vida pessoal acabam por ser complementares.

Dá até um exemplo: «Mudámos de escritório recentemente, e os meus filhos já o visitaram para saber onde o pai passa a maior parte do seu tempo.

Discuti com a minha mulher algumas das soluções propostas pelo arquiteto (a minha mulher é engenheira) e ouvi as suas sugestões. Ou seja, são complementares e não colidem uma com a outra. Acredito que para se ser feliz, temos de sê-lo em ambas as vidas.»

O diretor geral da Jaba Recordati tem na família o mais importante fator de equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal. «É mesmo a família (os meus cinco filhos e a minha mulher), fundamental para o meu equilíbrio como pessoa e como profissional.

Devem conhecer um pouco daquilo que fazemos, das dificuldades que temos, dos benefícios que recebemos. Têm de ser parte ativa na nossa vida profissional, entender o que fazemos e contribuir de forma positiva para a mesma; no limite, entender por que é que o pai ou marido tem de viajar tanto, por exemplo.»

Desafiado para eleger um livro de vida, fala de «Capitães da Areia», de Jorge Amado, embora também refira «A Queda dum Anjo», de Camilo Castelo Branco, que diz «retratar de uma maneira única uma sociedade intemporal». A nível técnico, destaca dois autores, também com um exemplo de fora e outro de Portugal: Michael Porter e Anabela Chastre.

 

Os tempos atuais não o fizeram repensar a questão da vida pessoal e da vida profissional. «Não foi necessário, pois continuei sempre a trabalhar de forma normal dentro deste novo normal.

 

Trabalhei a maior parte do meu tempo no escritório e sede da empresa, pois gosto de separar o local de trabalho, mas sempre cumprindo as regras de segurança (e até porque a minha empresa preparou o escritório desde logo, com todas as medidas de segurança). Portanto, não tive a oportunidade de trabalhar numa perspetiva nova, pois gosto muito da forma como o fazia antes e mantive.»

 

Três ‘hobbies’

Com uma licenciatura em Direito, um MBA executivo em Gestão de Negócio do Sector Farmacêutico, uma pós-graduação em Marketing e uma especialização em Gestão na Indústria Farmacêutica, Nelson Ferreira Pires é além de diretor geral da Jaba Recordati, cargo que ocupa desde 2010, curador da Fundação Marquês de Pombal e membro da Direção da APIFARMA – Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica.

Diz que no seu caso o equilíbrio entre vida pessoal e vida profissional «é muito fácil», porque adora o que faz e acredita que «a liderança pelo exemplo é um método eficiente».

Tem sempre disponibilidade das sete da manhã até à meia noite para qualquer colaborador que queira resolver um problema urgente, fazendo no entanto notar:

«Os nossos colaboradores sabem distinguir entre urgência e importância, portanto apenas tenho que intervir nos problemas urgentes e importantes, o que me permite um equilíbrio fantástico.

 

Acrescido pelo facto de ter uma equipa de gestão na Direção que é excelente, autónoma e ‘accountable’, e com autoridade para tomar decisões. Por outro lado, no meu ‘e-mail’ tenho no máximo cinco mensagens em aberto (ou seja, por solucionar), o que me retira pressão. Portanto, só me chegam as situações realmente importantes e as urgências são muito poucas.» 

 

As estratégias que utiliza para conseguir este equilíbrio resultam mais da sua própria experiência do que de algum estudo científico.

«Separo o meu local de trabalho da minha casa, ou seja, trabalho excecionalmente em casa.

Quando estou com a minha família, apenas vejo as mensagens (‘e-mail’, WhatsApp, SMS) quando estou sozinho. Apenas respondo a chamadas a partir das 21 horas que sejam realmente urgentes.

Quando estou a praticar um dos meus ‘hobbies’, nunca atendo o telefone. São soluções deste tipo, mas que nem precisava de as ter, pois as solicitações são esporádicas e muito disciplinadas.»

Os ‘hobbies’ são três. O primeiro é correr, cinco vezes por semana, pois adora praticar exercício (e precisa disso), nomeadamente corrida, e adora fazê-lo depois das 21 horas pela cidade de Lisboa. «Assim, alio o exercício físico ao prazer de conhecer os recantos da cidade mais bonita e sensual do mundo.»

O segundo ‘hobby’ é viajar: «Adoro viajar, correr mundo, nomeadamente com a minha mulher e algumas vezes com os meus filhos. Por norma, fazemos quatro viagens por ano (no mínimo) a destinos normais (como Berlim) ou mais exóticos (como Katmandu). Até agora já visitei 70 países e pretendo bater este meu recorde rapidamente, mas infelizmente o Covid-19 não está a ajudar. Valorizo a interação multicultural.

Nunca desfoco do objetivo da viagem a título profissional, aí essa é sempre a prioridade. Mas tento deixar uma tarde ou uma manhã para conhecer a cidade, e uma refeição livre para jantar num restaurante onde vão preferencialmente as pessoas da cidade, para conhecer melhor a forma como vivem. Por outro lado, como gosto muito de caminhar e de correr, aproveito a noite para conhecer os recantos.»

Terceiro e último ‘hobby’, a escrita:

 

«Adoro escrever, e escrevo muito sobre temas da minha área, gestão, mas também temas de pessoas, da sociologia e das relações humanas.»

 


Fonte: Human