08 JUNHO 2020

Afinal precisamos da Indústria Farmacêutica?

Nelson Ferreira Pires

Director Geral e Administrador da Jaba Recordati Portugal, Recordati UK e Recordati Ireland

Há algum tempo refletia sobre este tema, devido ao nível de reputação mediano que a Indústria Farmacêutica (IF) tem.

Motivado por erros cometidos pela própria Indústria, mas também porque na nossa cultura latina, a riqueza e o lucro são vistos como um mau desígnio das organizações; mais ainda quando se trata de obter lucro à custa das doenças dos cidadãos.

Mas o que julgo que os cidadãos que assim pensam, apesar de ser legítimo que o façam, é que a IF apenas ganha e obtém lucros à custa da solução das doenças ou sintomas, de acrescentar mais e melhor vida; portanto, não ganha com as doenças, mas sim com os tratamentos que chamamos de medicamentos ou “remédios”.

Hoje é natural ouvirmos alguém falar de uma pessoa de 65 anos como alguém que “ainda não é velho”, “um rapaz” ouvi no noutro dia dito por um senhor de 80 anos; quando há poucas décadas atrás se morria antes dos 60 anos. E isso é muito positivo para a sociedade, comunidade e cidadãos.

Pois vivemos mais, muito mais e com qualidade de vida.

Nos últimos 50 anos, a esperança de vida aumentou mais de 20 anos, devido à melhoria do conhecimento médico (por causa da academia, dos investigadores, mas também muito por causa da I&D levada a cabo pela IF), dos meios de diagnóstico e dos medicamentos/vacinas. Algumas doenças que eram mortais, tornaram-se crónicas (como o HIV) e outras foram mesmo tratadas e potencialmente erradicadas (como a hepatite poderá ser).

Portanto e em resposta, precisamos da Indústria Farmacêutica e muito! Só agora que ansiamos por uma vacina ou um tratamento que erradique o maldito coronavírus é que valorizamos os técnicos de saúde, mas também a IF.

Só quando estamos doentes é que valorizamos o que nos faz bem.

Julgo que agora todos entendemos as dificuldades, custo, tempo que leva a: descobrir as causas de uma patologia, do lançamento de um medicamento e o tempo que leva a chegar ao mercado; da construção de unidades fabris que produzam os mesmos medicamentos; do acompanhamento de farmacovigilância posterior entre muitas outras obrigações (legítimas que a IF tem de ter, pois estamos a falar de saúde pública).

E daí os preços dos medicamentos! E daí a necessidade de as empresas farmacêuticas terem lucro para investirem em novas terapêuticas, pagarem salários, mas também ajudarem quem mais precisa (como aconteceu em Portugal, com a oferta de mais de 2 milhões de euros pela IF para aquisição de EPIs).

Claro que os críticos de tudo e mais alguma coisa dirão; entregue-se esta tarefa ao Estado. Na realidade se refletirmos com informação e não apenas utilizando o “achismo” muito típico Português concluímos: o Estado Português gasta com medicamentos cerca de 3 mil milhões de euros por ano.

Cada medicamento inovador, custa a desenvolver quase mil milhões de euros e leva cerca de 10 anos para ser lançado. 

Certamente que o Estado não iria ter sucesso nesta aventura. Mas claro que a IF tem que encontrar um meio de reduzir os custos de I&D.

E está a fazê-lo, utilizando modelos de coopetição (em lugar de competição) entre empresas e utilizando a Inteligência artificial para acelerar e reduzir os custos de I&D.

Os modelos de negócio estão a evoluir da competição entre companhias farmacêuticas para a coopetição (competitividade, mas positiva e colaborativa entre companhias) devido aos elevados custos da I&D.

Em paralelo, cooperação com os Estados de forma a promover comportamentos saudáveis e a aumentar a prevenção de fatores de risco das doenças crónicas; com as instituições de conhecimento e ensino de forma a desenvolver o conhecimento básico de forma estratégica sobre quais serão as doenças do futuro e as necessidades de soluções terapêuticas.

Acrescido pelo facto de a inteligência artificial estar a assumir um papel fundamental para acelerar o desenvolvimento de novas soluções de saúde (medicamentos, meios de diagnóstico, dispositivos médicos, etc.), acelerando o mapeamento genético de novos vírus por exemplo, os processos e mecanismos de ação de novas doenças (ou das existentes) patologias e possíveis soluções, mas também integrando redes de conhecimento espalhadas pelo mundo.

Podemos questionar se os lucros que a IF obtém não são exagerados. Podemos e devemos questionar não os lucros da IF mas os preços dos medicamentos face aos resultados obtidos. Mas isso é algo que a IF defende há muito tempo e que apenas não acontece porque os estados não conseguem medir os outcomes em saúde (apesar dos pesados investimentos em tecnologia que fazem).

Os modelos de definição de preços de medicamentos e dispositivos médicos tem de ser alterado, tornando-se mais transparente.

Sistemas de procurement entre estados vão começar a acontecer nos tratamentos mais caros. Os modelos de pay-per-performance com a possibilidade de medir outcomes que a economia digital irá permitir, vai ser uma realidade cada vez mais presente. Nos EUA a Seguradora Sigma em 2016 implementou este modelo com várias companhias no tratamento do colesterol, bem como a Harvard Pilgrim Health Care com a Lilly no tratamento da diabetes.

As metodologias terapêuticas baseadas em valor com incentivos (Value Based Pricing) serão uma realidade em breve. Pelo que as companhias farmacêuticas querem se aproximar cada vez mais dos pacientes de forma a entender a sua experiência com a terapêutica bem como a compliance.

Podemos também questionar por que não obter o equilíbrio em saúde mais através da prevenção do que do tratamento. E aqui a IF terá de se reinventar, pois brevemente com os avanços na genética e programação celular, os médicos conseguirão fazer prognósticos acertados da probabilidade de certos doentes terem certas patologias. Desta forma a IF terá que cooperar e passar do tratamento de sintomas para a adoção de medidas de prevenção ou de tratamento curativos. Semelhante ao que aconteceu com a hepatite C.

O doente terá de ser mais envolvido na gestão da sua condição e participar activamente na prevenção em parceria com os médicos, mas também (e sempre) com a IF.

Podemos também questionar porque é que as experiências de alguns tratamentos não são mais simples para os doentes. Estamos já na IF 4.0 que traz inovação disruptiva e ‘sensorização’ das soluções terapêuticas. Isso é já uma realidade. Essas transformações tecnológicas irão, cada vez mais, aumentar a produtividade, reduzir o custo de produção, maximizar a segurança para o paciente e reduzir os preços de medicamentos. Isso implica desenvolver tecnologias de informação integradas, fábricas conectadas e processos inteligentes.

A rastreabilidade de medicamentos é um exemplo de iniciativa alinhada com a Indústria 4.0. As estruturas: que irão reposicionar o tratamento de “um comprimido” para “a experiência de um tratamento” são a Cloud computing, a Internet das Coisas, a Computação cognitiva – PLN , a Impressão 3D e o Big data – Capacidade de armazenar e processar dados em streaming.

Já temos alguns exemplos práticos deste mundo futurista, com a Daichi Sankio a fornecer no tratamento de um medicamento anticoagulante um sistema de monitorização (inclui uma app) que dá retorno ao médico de forma automática.

A Roche com um anti-diabético utilizando experiências de gamificação ou mesmo a possibilidade futura de fabricarmos em casa, imprimindo em 3D as “polypills” de vários medicamentos, simplificando a adesão às várias terapêuticas concomitantes.

Ou seja, sempre com a IF.

Mas acima de tudo, seria bom que quando isto tudo passar, e vai passar, todos nos lembrássemos de agradecer aos técnicos de saúde e todas as outras profissões que continuam a permitir que tenhamos uma vida normal; mas também à IF !

 


Fonte: HealthNews