16 ABRIL 2020

A pandemia pode mudar o seu negócio

O surto de COVID-19 representa um importante desafio humanitário em todo o planeta à medida que governos, profissionais de saúde e líderes políticos trabalham para conter a propagação do novo coronavírus e ajudar os afectados.

A pandemia da doença causada pelo novo coronavírus, Covid-19, está a revelar a fragilidade de um sistema globalizado.

 

O fim da Globalização?

A actividade financeira está concentrada nos EUA, enquanto a China é o maior produtor de quase tudo. Quando o primeiro viveu o colapso financeiro, em 2008, o mundo tremeu. Agora, quando a China abriu a porta do covid-19, o mundo hibernou numa crise económica global.

 

A pandemia colocou em causa a interdependência entre países. 

 

Se alguma vez houve um momento para a América e a China se unirem, é agora. Médicos e enfermeiros norte-americanos desesperam contra a falta de máscaras de protecção, vestuário adequado ou gel desinfectante. Enquanto isso, a China produz metade das máscaras médicas do Mundo e domina a produção de ventiladores e respiradores.

Só que em vez de colaborarem no fabrico e distribuição de equipamentos de emergência, Washington e Pequim mantêm-se de costas voltadas no que toca à origem do vírus. A troca de hostilidades entre as duas maiores potências económicas passou para o campo da saúde pública e das teorias de conspiração.

 

Gerir com firmeza numa era de incerteza

A crise representa também um importante desafio para negócios e gestores. Muitas empresas e sectores, incluindo o sector das viagens, as cadeias de abastecimento e o comércio, estão já a enfrentar efeitos económicos amplos e impactos específicos de cada sector.

Os gestores têm de ser mais inteligentes na maneira como usam a hierarquia. Os bons líderes sabem ser flexíveis - usar a hierarquia para cumprir objectivos, mas também nivelar a organização quando querem que os colaboradores sejam criativos.

 

 As empresas compreendem que para acertarem na hierarquia, precisam de investir no desenvolvimento da liderança.

 

Até as startups sabem que a liderança é um conjunto de ferramentas comportamentais que podem ser aprendidas.

Nelson Pires | General Manager da Jaba Recordati

Até que ponto é que esta pandemia poderá vir a alterar as linhas estratégicas da sua empresa e do seu negócio?

Julgo que serenidade e capacidade de adaptação são as ferramentas que iremos utilizar para ultrapassar este momento complicado para os cidadãos e para as empresas.

Vai certamente alterar a maioria das linhas estratégicas do nosso modelo de negócio, que é, devido á sensibilidade da nossa missão (saúde dos cidadãos e saúde pública) muito sensível, conservador e unidimensional. 

 

  • Os modelos de negócio têm de evoluir da competição entre companhias, para o modelo de competição (competitividade mas cooperativa e positiva para todos);
  • Acelerar o R&D de novos medicamentos através da Inteligência Artificial (IA), mas também modelos de cooperação com os estados de forma a aumentar a prevenção das doenças crónicas;
  • Promover a re-industrialização do País e da Europa (reduzindo a dependência da China e de outros mercados de fabricos de API e produtos intermédios com baixo preço), com novos modelos de supply chain;
  • Garantir o acesso de novos medica- mentos através de métodos de "Pay per Performance", que seja baseado em outcomes de saúde medidos na medicina com base na evidência;
  • Estamos realmente a ser "empurrados" para a economia digital, em que teremos que aumentar a nossa presença digital (mas sem perder o "toque humano");
  • É uma oportunidade única de fazermos um "reset" na nossa reputação (nem sempre justa, por termos lucros por solucionar e tratar doenças);
  • Teremos que incrementar o nosso share of voice através de meios não presenciais e dos meios digitais;
  •  Teremos que acrescentar valor real no contacto a todos os nossos clientes, alterando os KPI que medem o ROI da nossa actividade, mas também os modelos de definição de preços que terá de ser flexibilizado;
  • Alterar o actual modelo de funções que implique ao alargamento da gestão de stakeholders;
  • Alterar o modelo de trabalho prestado com aumento do "remote smart work" e "job sharing", com a consequente alteração do modelo de remuneração individual dos colaboradores;
  • Dinamizar o modelo de "e-prescribing" assim como começar a valorizar o papel do "cidadão e doente" que começa a estar mais informado;
  • Garantir que o "health 2.0" com a informatização dos dados de saúde dos cidadãos, permita medir e identificar tendências, avaliar decisões de prescrição e gestão, entre muitas outras;
  • Potenciar que as redes de conhecimento académicas formem verdadeiras alianças com as empresas de forma a conseguir acelerar o conhecimento.

 Em suma, redesenhar totalmente o nosso modelo de negócio mas sempre pensando que:

Em momentos de crise, quando muitos choram, outros vendem lenços de papel

 

No sentido de apoiar e acelerar a economia e as empresas, que medidas deveriam ser desde já aplicadas? 

O mais importante agora é salvar a vida dos cidadãos e vencer os maiores desafios desta pandemia para além do sanitário, o desafio económico e social. O consumo privado representa 64,3% em percentagem do PIB.

Certamente veremos uma diminuição do consumo de bens e serviços por parte da população, pelo facto de uma grande parte das pessoas ficar em casa e várias lojas fecharem, mas também por não estar garantida a produção desses mesmos bens.

No imediato, a Europa e o Estado têm um papel central e fulcral. A Europa deve Garantir a injecção de liquidez nos mercados a juros controlados e baixos, bem como flexibilidade na gestão da dívida pública e dos rácios financeiros do deficit dos países que mais sofrerem com esta crise.

O Estado deve tornar-se um parceiro das pessoas e empresas e apoiá-las reduzindo a burocracia normal de um estado pesado e lento a tomar decisões que suportem empresas e trabalhadores (nomeadamente as pequenas e médias), apoiem na gestão da tesouraria das mesmas empresas, flexibilizem medidas de incentivo económico que estimulem o consumo quando esta crise passar, redução das medidas que tenham impacto fiscal negativo na vida das empresas, garantir medidas de protecção laboral.

Algumas medidas já tomadas mas outras ainda por tomar, medidas como:

 

  • Moratória no pagamento de empréstimos com hipotecas, até ao máximo de 18 meses, com consequente apoio das instituições financeiras;
  • Adiar o pagamento de contas da luz, gás, água e telecomunicações essenciais; 
  • Os negócios "sociais" mais afectados como lojas, cinemas, restaurantes e casas de espetáculos com taxas suspensas ou mais baixas e apoios direccionados;
  • Apoio a trabalhadores desempregados fruto da crise;
  • Apoio ao sistema de baixas;
  • Adiamento do pagamento de Impostos para o final do ano 2020;
  • Novas regras de licença de paternidade; 
  • Flexibilização da legislação laboral que permita que não exista contenção por parte dos empresários, no recrutamento de novos colaboradores, devido á rigidez laboral do nosso modelo;
  • Criação de linhas crédito de médio prazo de forma a garantir a tesouraria das empresas;
  • Aumento do contacto com a administração pública através dos meios digitais;
  • São também necessárias medidas que injectem capital nas empresas, quer através de nacionalizações completas ou parciais de grandes empresas dos sectores afectados (por exemplo as ligadas ao turismo ou aviação comercial).

Acima de tudo medidas que permitam tranquilizar pessoas e empresas neste momento disruptivo e injecte liquidez no mercado de forma a garantir alguma procura e não promova a deflação!

 


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