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A Diabetes e o controlo do Colesterol

João Filipe Raposo | Endocrinologista e Diretor Clínico da APDP


João Filipe Raposo | Endocrinologista e Diretor Clínico da APDP

Todos nós, profissionais de saúde, pessoas com diabetes, familiares ou amigos destas, associamos a palavra diabetes aos níveis elevados do açúcar no sangue (hiperglicemia). O foco no controlo destes níveis baseia-se nas escolhas alimentares adequadas e na prática da atividade física com vista à redução do peso corporal - no caso de existir excesso de peso ou obesidade (85% da população com diabetes nos cuidados de saúde primários estão nesta situação). Infelizmente todos sabemos a dificuldade de alterar os estilos de vida vai muito para além da nossa vontade - e por isso associamos desde o início terapêutica farmacológica - medicamentos que ajudam a controlar a diabetes - que pode ser sob a forma de comprimidos, insulina ou outros tratamentos injetáveis que não a insulina - muitas vezes associando mais do que uma categoria de medicamento.

Para sabermos se a diabetes está bem controlada podemos verificar se temos alguns sintomas associados a esta, podemos verificar as glicemias (através da picada no dedo ou utilização de um sensor) ou através da análise HbA1c (hemoglobina glicada ou A1c) que traduz o controlo médio das glicemias nos três meses anteriores ao da sua realização.

Saiba junto do seu médico qual o valor desejável atendendo à sua situação clínica - geralmente entre 6,5% e 8% (mas há exceções para estes limites). Em Portugal a média da HbA1c da população seguida nos cuidados primários de saúde é de 6,8% (muito bom). Manter este valor controlado é muito importante para prevenir as complicações associadas aos pequenos vasos sanguíneos da retina, dos rins e dos nervos e que poderão originar a retinopatia diabética (ainda causa frequente de cegueira), nefropatia diabética (causa de insuficiência renal com necessidade de diálise ou transplante renal) ou neuropatia diabética (causa das alterações de sensibilidade, alterações musculares ou dos sistemas de controlo do corpo).

 

Mas há mais complicações associadas à diabetes?

A maior parte dos internamentos das pessoas com diabetes em Portugal em 2015 - 26% - foi devido a problemas circulatórios dos grandes vasos do corpo, nomeadamente AVC (tromboses), doença coronária (enfartes e outras situações) e doença vascular periférica (essencialmente problemas graves de circulação dos membros inferiores e que podem estar associados às amputações).

Sabemos que estas também são a causa da maior parte da mortalidade associada à diabetes.

 

Estaremos a deixar passar ao lado o controlo de outros fatores?

As pessoas com diabetes têm frequentemente também dislipidemia (alterações do colesterol ou outras gorduras - causa de aterosclerose) e hipertensão arterial e sabemos que o controlo nestes dois elementos é provavelmente o mais importante para prevenir as doenças dos grandes vasos.

O controlo destes níveis está também associado às mudanças de estilo de vida e à perda de peso, mas, repetindo, todos nós sabemos como é difícil.

Por esse motivo, o controlo da tensão arterial passa frequentemente pela utilização de mais do que um tipo de comprimidos e o controlo dos níveis de colesterol geralmente pela utilização de um tipo de medicamento - estatinas.

 

Quais os níveis de colesterol normais?

O colesterol que está presente no organismo depende do que ingerimos - do que vem da alimentação, e do que o organismo é capaz de fabricar (depende de fatores genéticos - há grandes variações entre famílias).

Quando o médico nos pede análises do colesterol no sangue podemos ter medições do colesterol total ou de vários subtipos deste ou ainda dos triglicéridos (uma outra forma de gordura que circula no sangue).

Os subtipos de colesterol solicitados por rotina são o HDL-colesterol (colesterol ligado a lipoproteínas de alta densidade) e o LDL-colesterol (ligado a lipoproteínas de baixa densidade) - as lipoproteínas são proteínas que transportam as gorduras no sangue.

O HDL-colesterol é a forma conhecida como "colesterol bom" porque corresponde ao transporte do colesterol dos tecidos do corpo para o fígado para ser eliminado. É antiaterogénico. Há valores de referência ("normais") diferentes para homens e mulheres.

O LDL-colesterol é a forma conhecida como "colesterol mau" porque promove o transporte do colesterol para os tecidos e vasos e é por isso favorecedor da aterosclerose.

Para sabermos o risco de termos doenças associadas a aterosclerose temos de interpretar estes valores em conjunto. Idealmente devemos ter um colesterol total baixo (geralmente inferior a 200 mg/dL) e de preferência devemos estar protegidos dos efeitos do LDL-colesterol com um HDL-colesterol mais alto (idealmente acima de 60 mg/dL).

Um estudo efetuado na Dinamarca e já publicado em 2003 (Estudo Steno-2) mostrou que para a redução de doenças ateroscleróticas o controlo do colesterol é mais importante que o controlo da glicemia avaliado pela HbA1c.

Muitas vezes tendemos a simplificar, e em vez de interpretarmos os valores em conjunto, consideramos que na diabetes um nível de LDL-colesterol inferior a 100 mg/dL é considerado bom e suficiente para diminuir o risco de doença aterosclerótica.

Temos informação relativa aos níveis de colesterol de 68% da população com diabetes em Portugal - só 53% têm um nível de colesterol-LDL inferior a 100 mg/dL. A terapêutica farmacológica é muito eficaz na redução destes níveis. É pois possível estar bastante melhor.

 

Em resumo

  • Controlar a diabetes é controlar a glicemia (açúcar no sangue), dislipidemia (alterações do colesterol) e a tensão arterial.
  • Saiba quais são os seus valores de HbA1c, tensão arterial e colesterol (especialmente o LDL-colesterol) e saiba quais são os seus objetivos para estas medidas.
  • Se não atingiu os seus objetivos, discuta com o seu médico qual a melhor maneira de os atingir.
  • Não esqueça, seja exigente consigo. Estes são objetivos possíveis e desejáveis.

 


 

Artigo publicado na Revista Diabetes nº 82